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Crise na Venezuela: a vida no Country Club de Caracas, oásis de riqueza no país

Sede do Caracas Country Club foi desenhada pelo escritório de arquiteto americano que codesenhou o Central Park, de Nova York - NORBERTO PAREDES
Sede do Caracas Country Club foi desenhada pelo escritório de arquiteto americano que codesenhou o Central Park, de Nova York Imagem: NORBERTO PAREDES

Norberto Paredes - BBC News Mundo

20/11/2019 11h01

É meio-dia em Caracas e, como todos os dias nessa hora, a cidade está em ponto de ebulição.

As buzinas dos carros não param de tocar, e tanto os vagões de metrô quanto os ônibus estão abarrotados de pessoas, que lidam silenciosamente com o trânsito e o calor da capital venezuelana.

Mas em Country Club a realidade é diferente. Neste bairro, localizado em pleno centro geográfico da cidade de quase 2 milhões de habitantes, a tranquilidade impera.

Com suas mansões e campo de golfe, a região faz esquecer que está na Venezuela, país que vive uma crise socioeconômica sem precedentes, onde a inflação atingiu 130.060% em 2018 e mais de 5 mil pessoas migram para outros países todos os dias.

"A monstruosidade de algumas casas é impressionante. Parece Miami", afirma Juan Carlos*, da sacada de seu moderno apartamento em um bairro vizinho.

"Em qualquer lugar do mundo as pessoas perderiam um olho para ter uma casa dessas."

O bairro ganhou o nome graças ao Caracas Country Club (CCC), construído em 1928 pelo escritório do arquiteto americano Frederick Law Olmsted, o mesmo que codesenhou o Central Park de Nova York e os jardins da Casa Branca, e tido como clube mais elitista do país.

O preço médio de uma casa no bairro passa de US$ 1 milhão (cerca de R$ 4,2 milhões), e a cifra persiste apesar do declínio generalizado no mercado imobiliário da Venezuela nos últimos anos.

'Uma bolha, uma fantasia'

A família de Juan Carlos é sócia do clube há gerações ? o custo para se associar pode chegar a US$ 100 mil (cerca de R$ 420 mil).

Frequentemente, Juan Carlos convida amigos a comer e beber nas instalações do clube.

"Eu vejo tudo isso como uma forma de escape para toda essa gente com poder aquisitivo", afirma Juan Carlos.

"É como um parque de diversões, você se isola dos problemas e permite que você fique em um lugar tranquilo, onde você não é roubado. Morando lá: uma bolha, uma fantasia. Um lugar que não representa a realidade do país."

O preço médio de uma casa na região passa de R$ 4,2 milhões - NORBERTO PAREDES
O preço médio de uma casa na região passa de R$ 4,2 milhões
Imagem: NORBERTO PAREDES

Um bairro também atingido pela crise

Mas o Country Club em 2019 não é o mesmo bairro do passado.

Embora à primeira vista isso não seja totalmente óbvio, essa área da capital venezuelana também não está imune à crise.

Algumas casas estão abandonadas, outras estão sendo demolidas e muitas foram vendidas para órgãos diplomáticos e depois transformadas em embaixadas.

Os habitantes locais também sofreram financeiramente com o colapso da produção industrial do país, de pouco mais de 30 milhões de habitantes.

Boa parte dos vizinhos são empreendedores que precisam reduzir suas operações ou até fechar seus negócios, demitindo milhares de funcionários. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o desemprego na Venezuela deve atingir 44,3% da população.

"A crise acabou com os negócios do meu pai e com a capacidade de produzir dinheiro neste país", diz Luis*, outro sócio do Country Club.

Muitas casas estão abandonadas, sendo demolidas ou foram vendidas a corpos diplomáticos - NORBERTO PAREDES
Muitas casas estão abandonadas, sendo demolidas ou foram vendidas a corpos diplomáticos
Imagem: NORBERTO PAREDES

Mas o que mais afeta a todos é a hiperinflação.

"Trabalho em uma empresa estrangeira e sempre ganhei em dólares. Sempre tive um padrão de vida estável, mas a hiperinflação atingiu um nível tão alto que corrói até os dólares."

"Você vai ao mercado e tem tudo. Mas o que custa US$ 10 hoje, se você for daqui a duas semanas, custará US$ 20. E você se pergunta: por quê? Simplesmente não faz sentido", segundo ele.

A atual Venezuela, que sofre com escassez de alimentos e remédios em grande parte do território, contrasta com a de alguns anos atrás, devido à dolarização que o país vive na prática.

Muitas lojas exibem etiquetas tanto com preços em moeda local quanto em dólares. E a maioria aceita pagamentos em moeda estrangeira.

"Saí para beber em um bar há uma semana e pedimos uma garrafa de rum, que custava US$ 70 (quase R$ 300)", acrescenta Luis. A mesma garrafa da bebida venezuelana é vendida em Nova York por US$ 24 (cerca de R$ 100).

Por outro lado, o governo do presidente Nicolás Maduro aprovou no mês passado um aumento do salário mínimo para 300 mil bolívares soberanos, cerca de US$ 18 ou R$ 75. Um litro de leite chega a custar 38 mil bolívares soberanos, ou US$ 1,31.

Uma geração perdida

Sob um sol escaldante, crianças nadam e brincam ao redor da piscina do clube enquanto seus pais bebem e socializam. Todos parecem se conhecer.

Um pequeno grupo joga golfe em um campo de 18 buracos, outro joga tênis. No restaurante, não cabe uma alma.

A idade dos presentes chama a atenção de Luis, cuja família é sócia do clube há mais de 50 anos.

"Há uma geração inteira que simplesmente não está aqui, e essa é minha geração", afirma o jovem, de quase 30 anos.

Como ocorre a todos os setores da sociedade venezuelana, a emigração também atingiu as famílias do Caracas Country Club.

"Neste clube, foram sempre os esnobes que estiveram no comando, mas ultimamente só ficaram os velhos. Não há uma geração relevante. O Country Club está fora de moda", sussura Luis, tomando o cuidado de falar com ninguém por perto.

Jovens socializavam no tradicional bar O Pinguim - NORBERTO PAREDES
Jovens socializavam no tradicional bar O Pinguim
Imagem: NORBERTO PAREDES

Algumas normas do Country Club também parecem datadas, como o traje formal exigido para almoçar em um dos restaurantes dali.

'Hoje só restou um amigo em Caracas'

Gabriela* é uma integrante dessa "geração perdida" em torno do Country Club que vive no exterior e lembra com nostalgia da sua adolescência no clube.

"Era divertidíssimo, havia muitos jovens, com as roupas da moda, mas quase todos migraram. Acho que só restou um amigo em Caracas."

"Hoje, se você é jovem e vai até lá, dá pena. Os mais velhos pensam: 'não teve oportunidade de ir embora ou foi louca de não querer sair'. Eles acham que todo mundo se foi."

Gabriela é uma das mais de 4 milhões de pessoas que deixaram o país, segundo a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Os seis principais destinos são, nesta ordem: Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Equador e Brasil.

A jovem diz que não pensaria duas vezes em voltar caso a situação do país mudasse.

"Seria incrível voltar. Aqui na Europa há muitas coisas boas, mas pensando na minha carreira, lá na Venezuela eu poderia começar um negócio com mais facilidade e ao mesmo tempo contribuir com o desenvolvimento do país."

Outro motivo para querer voltar, afirma ela, é a responsabilidade que sente pela Venezuela.

"Nós fomos muito sortudos. Nossas famílias puderam fazer dinheiro quando dava para isso."

"Mas somos uma parcela muito pequena. Quando fomos embora, saímos com a desculpa de obter um diploma no exterior. Agora sinto que temos a responsabilidade de voltar com nossos conhecimentos adquiridos e levar o país adiante", diz.

Para Luis, Country Club está fora de moda - NORBERTO PAREDES
Para Luis, Country Club está fora de moda
Imagem: NORBERTO PAREDES

Grandes sobrenomes, pouco dinheiro

Para muitos venezuelanos, o risco de ir para um estrato social mais pobre é bem maior que a chance de ascender.

"Como dizemos aqui: há muita gente com grandes sobrenomes, mas com contas bancárias desse tamanhinho aqui", gesticula Juan Carlos.

Segundo Gabriela, o estilo de vida de muitos sócios do Country Club mudou drasticamente.

"Se a pessoa vive na Venezuela talvez não note muito, mas quando viaja ao exterior, se dá conta de que não pode mais se permitir tantos luxos como antes."

Futuro incerto

Além de todos os problemas que enfrenta a Venezuela, há um fato que preocupa especialmente às classes mais abastadas: a incerteza.

"Minha maior dor de cabeça é não saber o que o futuro me reserva. Às vezes me pergunto se tomei a decisão correta quando decidi ficar no país. Vejo que no exterior muita gente está se desenvolvendo profissionalmente e prosperando", reflete Luis.

Juan Carlos diz ter a mesma dor de cabeça, sem saber se há uma "luz no fim do túnel".

Ele começou seu próprio negócio recentemente e garante que, se você tem um espírito empreendedor, é relativamente fácil prosperar profissional e economicamente.

"A Venezuela sempre foi, e ainda é, um país cheio de oportunidades."

*Os nomes com asteriscos foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

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