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Paraisópolis: adolescente de 16 anos que estudava de manhã e limpava estofados à tarde atravessou cidade para ir a baile onde morreu

Denys Henrique, de 16 anos, é uma das nove pessoas que morreram após ação da polícia no Baile da 17 na favela de Paraisópolis - Arquivo pessoal
Denys Henrique, de 16 anos, é uma das nove pessoas que morreram após ação da polícia no Baile da 17 na favela de Paraisópolis Imagem: Arquivo pessoal

Felipe Souza - @felipe_dess - Da BBC News Brasil em São Paulo

05/12/2019 08h09

No último fim de semana, ele saiu de Brasilândia - periferia da zona norte de São Paulo - e foi até Paraisópolis, na zona sul, onde morreu após operação da PM no baile da 17.

Um adolescente de 16 anos que cursava o primeiro ano do ensino médio pela manhã e trabalhava à tarde como lavador de estofados, Denys Henrique Quirino da Silva é descrito pela família como um garoto muito inteligente, amoroso e que tinha prazer em fazer os amigos rirem com suas piadas.

No último fim de semana, ele deixou a casa onde morava em Brasilândia - periferia da zona norte de São Paulo - e atravessou a cidade até a favela de Paraisópolis, na zona sul. Foi a última vez que ele curtiu o Baile da 17, ou Dz7, ao lado dos amigos. Ele é um dos nove jovens que morreram após uma ação da Polícia Militar no "pancadão".

Os policiais disseram ter entrado no Baile da Dz7 após dois suspeitos de terem roubado uma moto ter tentado fugir pelo meio da festa que atrai milhares de pessoas todos os fins de semana. Algumas até de outras cidades. A versão oficial diz que todas as vítimas morreram pisoteadas durante a confusão.

Imão de Denys, Danylo Amilcar, de 19 anos, não se conformou com o relato oficial.

Ele estava no grupo que foi recebido pelo governador de São Paulo, João Doria, após uma passeata que saiu de Paraisópolis e foi até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, nesta quarta-feira (4/12). Para ele, nem todas as pessoas, incluindo seu irmão, morreram pisoteadas.

Durante o encontro, João Doria, o secretário da Segurança Pública paulista, general João Camilo Campos, e chefes de outras pastas se comprometeram a criar uma comissão externa para apurar as nove mortes que ocorreram no baile em Paraisópolis. Além de familiares das vítimas, a apuração paralela vai contar também com a participação de membros do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), OAB e organizações de Paraisópolis.

"Essa manifestação significa que a gente não vai aceitar o que eles querem e que não ficaremos calados. Mostra o tamanho da nossa força. Diante de um massacre onde nove jovens morrem sem ter cometido crime nenhum, ver tantas mulheres e crianças caminhando por pessoas que elas nem conheciam demonstra indignação e que não ficaremos quietos diante de tudo isso", afirmou Danylo Amilcar à BBC News Brasil.

"Essa manifestação significa que a gente não vai aceitar o que eles querem e que não ficaremos calados, diz Danylo Amilcar, irmão de garoto de 16 anos que morreu durante ação no Baile da 17 - Felix Lima/ BBC News Brasil
"Essa manifestação significa que a gente não vai aceitar o que eles querem e que não ficaremos calados, diz Danylo Amilcar, irmão de garoto de 16 anos que morreu durante ação no Baile da 17
Imagem: Felix Lima/ BBC News Brasil

Só mais de uma hora depois de ter entrado no Palácio dos Bandeirantes, o grupo convenceu membros da secretaria de Governo de que eles deveriam ser recebidos pelo governador.

Baile da 17

A festa mais famosa de Paraisópolis é na verdade um pancadão embalado pelo som de carros com poderosos sistemas de som estacionados ao longo de algumas das ruas estreitas da favela. Grupos de jovens se reúnem no entorno desses veículos para dançar, beber e se divertir. De acordo com moradores ouvidos pela BBC News Brasil, há semanas em que o pancadão começa na noite de quinta-feira e se estende até domingo.

A festa já chegou a reunir cerca de 30 mil pessoas nas vielas e em quatro das principais ruas da favela. Semanalmente, o baile recebe excursões de jovens de cidades do interior de São Paulo e até de outros Estados, como o Rio de Janeiro.

O alto barulho, no entanto, fez com que moradores se mudassem da área, dando espaço para estabelecimentos comerciais voltados aos frequentadores, como tabacarias e bares. Parte do baile é bancada por esses comerciantes.

Também há diversas denúncias de atuação do crime organizado, que se utiliza das festas para comercializar drogas ilegais. O Baile da 17 foi criado no início dessa década nas ruas de Paraisópolis. Segundo moradores, o número 17 é uma referência a um bar de drinks que existia na favela.

O líder comunitário de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, que também fez parte do grupo que se reuniu com o governador diz que cobrou propostas para deixar o baile mais seguro.

"Foi uma violência o que aconteceu aqui. Não importa se houve uma perseguição ou se tinham pessoas vendendo drogas ou algo do tipo. É um absurdo usar essas justificativas para cometerem esse crime. Temos que estruturar esses bailes. O baile é ilegal há anos, então por que não se organiza já que acontece há tantos anos, isso acontece e não se resolve? O sistema está sendo falho. Ele serve para os jardins, serve para a Vila Madalena, Mackenzie, Higienópolis (em menção a bailes que ocorrem em ruas de áreas nobres), mas não serve para Paraisópolis e nem para as favelas do Brasil", afirmou.

Lenços brancos

A passeata desta quarta-feira começou na rua Ernest Renan, na favela de Paraisópolis, o mesmo local onde ocorre semanalmente o Baile da 17. A mesma região onde os nove jovens morreram após ação da PM no último fim de semana.

Antes mesmo do ato começar, as famílias das nove vítimas, com idades entre 14 e 18 anos, se emocionaram. Chorando, poucos tiveram condição de falar ao microfone conectado a um amplificador de som.

Entre os que se expressaram, a mensagem mais enérgica partiu de Danylo Amilcar, que questionou a versão oficial de que todas as vítimas morreram pisoteadas.

"Exigimos que todos os responsáveis (pelas mortes) sejam punidos e investigados. O que aconteceu aqui não foi uma fatalidade. Não foi sem querer. E não foi pisoteamento. O secretário da segurança pública tem responsabilidade. O governador tem responsabilidade", afirmou o adolescente com os olhos cheios de lágrimas.

O protesto começou nas ruas estreitas e lotadas de Paraisópolis, passou pelas largas e arborizadas avenidas do rico bairro vizinho do Morumbi, com mansões cercadas por muros com mais de dez metros de altura e cercas elétricas até chegar a cerca de 500 metros de uma das entradas do palácio dos Bandeirantes. O ponto final foi delimitado por uma barreira formada por policiais militares com escudos e armas que disparam balas não-letais.

Durante o trajeto, manifestantes agitaram lenços brancos entregues no início do ato e gritaram palavras de ordem contra o governo estadual e a Polícia Militar. Um dos coros mais entoados dizia: "Doria, a culpa é sua. A luta continua".

14 anos

O mais jovem entre os nove mortos no Baile da 17 foi à festa escondido da família. Gustavo Xavier, de 14 anos, passou os últimos cinco anos de sua vida sem a presença do pai, que morreu vítima de câncer.

O papel foi assumido majoritariamente pelo tio e padrinho do adolescente, Roberto Oliveira. Durante a passeata, ele falou que o garoto foi à festa por falta de outras opções de lazer perto da casa onde ele morava no Capão Redondo, a cerca de 9 km de Paraisópolis.

"Ele queria curtir como qualquer jovem e saiu escondido como a maioria dos adolescentes que vêm aqui. No sábado, ele foi na minha casa quando a gente estava fazendo churrasco e disse que iria embora. Ele era um menino muito doce, respeitoso e que nem falava palavrão", afirmou.

Oliveira sugere que seja criado pelo governo um espaço dedicado a bailes como o de Paraisópolis na cidade.

"Aqui é um lugar muito estreito para 5 mil pessoas. Eles (governo) tinham que pegar um local como o Anhembi e oferecer para os jovens fazerem o baile", disse à reportagem.

Paraisópolis

Segunda maior favela de São Paulo, a estimativa é que mais de 100 mil pessoas morem na comunidade. Cerca de 21% dos habitantes trabalham nos cerca de 8 mil comércios dentro da própria favela, segundo a associação de moradores.

Por outro lado, apesar do comércio aquecido e da fama adquirida com uma novela da TV Globo que usava suas vielas como cenário, a comunidade ainda tem uma série de problemas comuns a toda favela do Brasil, como pobreza extrema, falta de saneamento básico e violência.

Obras de urbanização estão paradas há anos, como canalização de um córrego e a construção de moradias sociais. Cerca de 5 mil famílias da comunidade vivem de bolsa-aluguel pagos pela prefeitura.

Paraisópolis não tem nenhuma biblioteca, parques ou salas de cinema.

Por outro lado, a favela localizada no distrito da Vila Andrade na zona sul de São Paulo, é campeã em tempo de espera quando o assunto é marcar uma consulta com um clínico geral: 75 dias.

Já no rico bairro vizinho do Morumbi, que fica literalmente do outro lado do muro que o separa da favela, a espera é de apenas 1 dia. A média de espera do município de São Paulo é de 19 dias.

O distrito onde fica Paraisópolis também fica em primeiro lugar em toda a cidade com o maior tempo de espera para matricular uma criança na creche. Não possui nenhum equipamento público de cultura, enquanto no Morumbi a média é de 5,83 equipamentos para cada 100 mil habitantes e o bairro conta até com um museu.

Esses dados oficiais são referentes ao ano de 2018 e foram compilados no Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo.

Nos últimos anos, a União de Moradores e Comerciantes criou uma série de projetos para tentar melhorar a vida no bairro, como um banco comunitário, restaurantes populares, escolas de balé e música para crianças.

Recentemente, Paraisópolis participou da criação do G-10 das favelas do Brasil, grupo que pretende desenvolver a economia local por meio do empreendedorismo.

Cotidiano