Opinião: Quando valores e interesses colidem

Christoph Hasselbach

Com sua política migratória, Merkel de repente subordinou interesses da Alemanha a seu próprio entendimento de valores. Volatilidade não é o que se espera dos alemães, opina o jornalista da DW Christoph Hasselbach.Desde o início da crise de refugiados, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, falou bastante sobre valores. Valores europeus e cristãos devem ser defendidos, insistiu. O que ela quis dizer é que refugiados precisam ser acolhidos. Com esse imperativo moral, ela prescreveu, há um ano, uma política de portas abertas na Alemanha. E deixou claro várias vezes que não há um limite para o número de migrantes a serem recebidos. É verdade que, após as eleições em Berlim há uma semana, ela falou de erros, assumiu uma perda de controle por parte do Estado e classificou sua tão repetida frase "nós vamos conseguir" de fórmula vazia. No entanto, teve-se a impressão de que ela fazia isso mais por motivos estratégicos, ou seja, para restabelecer a unidade dos partidos da União [CDU e CSU] e tornar possível uma nova candidatura à Chancelaria Federal. Ela não revogou sua política migratória. O acolhimento sem limites de pessoas de outras culturas, muitas delas com pouca formação, não pode ser do interesse da Alemanha. Mas foi assim que Merkel fez soar no início – em razão dos valores. Rapidamente colapsaram argumentos de políticos e de representantes da indústria de que os recém-chegados teriam efeitos positivos para a economia e poderiam compensar a alegada falta de mão de obra qualificada. Na verdade, Merkel não precisava dessa ajuda. Na escolha entre interesses e valores ela se decidiu nesse caso pelos valores como prioridade. A atitude dela tinha algo de profundamente protestante: fazer algo de que se pode não gostar, ao ponto de se autossacrificar, simplesmente porque parece ser moralmente necessário. Na vida privada isso pode ser honrável. Mas, como chefe de governo, se pode cobrar isso da população? E mais: tentar angariar toda a UE para isso? Enquanto valores e interesses forem bastante congruentes, isso não é um problema. As dificuldades começam quando esses dois conceitos divergem. E esse é o caso aqui. Ou melhor dizendo: muitos alemães veem as coisas dessa maneira, e a grande maioria rechaça a linha adotada por Merkel. Para não mencionar os demais europeus. Nem todos pensam que interesses precisam ser sacrificados em favor de valores. Além disso, que valores? Ajuda aos que necessitam é certamente um valor universal. Mas em muitos países manter a própria cultura e uma população relativamente homogênea também é considerado um valor. É por isso que o Japão, por exemplo, quase não acolheu refugiados da Síria, mas doou muito dinheiro para a assistência a eles nos países vizinhos. Os japoneses podem dizer que defenderam, ao mesmo tempo, os próprios valores e os próprios interesses. Do ponto de vista diplomático, as ações de Merkel têm mais uma dimensão: a chanceler federal não apenas se isolou completamente na Europa, mas outros países também não estão mais seguros em relação aos alemães. Interesses são bastante constantes. O Estado que persegue os próprios interesses pode até ser inconveniente, mas é previsível. E aí vem uma chanceler federal alemã, que na realidade é vista como o epítome da razão sóbria, e, de repente, subordina todos os interesses de seu país a seu próprio entendimento de valores. A mesma chanceler que, como "física", era inicialmente uma adepta convicta da energia nuclear, mas que depois de Fukushima (apesar de ser impossível na Alemanha um Tsunami, que provocou a tragédia) não quis mais saber disso. Na França, surgiu a expressão incertitudes allemandes (incertezas alemãs). Volatilidade e imprevisibilidade não são o que outros países esperam dos alemães, cuja reputação atual é a de ir de um extremo ao outro. Agora Merkel falou de erros na política migratória. Há um mês, Bassam Tibi, cientista político que emigrou da Síria para a Alemanha décadas atrás, alertou em entrevista à DW que, após a cultura das boas-vindas sem limites, os alemães poderiam ir para o outro extremo novamente em relação à migração. Resta esperar que não se chegue a tal ponto.

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