Abrigo para refugiados preocupa moradores em Paris

Lisa Louis

Novo centro para acolhimento e realocação de migrantes está causando alvoroço entre moradores do bairro de Porte de la Chapelle, no norte na capital. Prefeitura trata projeto como modelo.Paris vai inaugurar no fim deste mês um novo centro para o acolhimento e realocação de refugiados, no norte da cidade. Espera-se que a nova unidade possa acolher entre 400 e 600 homens. Eles receberão roupas, comida, assistência médica e social. Depois de dez dias, serão transferidos para abrigos temporários em toda a França, onde permanecerão até que seu pedido de asilo seja processado. Um segundo centro, para o acolhimento apenas de mulheres e crianças, vai ser aberto no subúrbio de Ivry, ao sul da capital, no próximo ano. Na França, o Estado é responsável pelo cuidado dos migrantes. No entanto, em meados do ano, a prefeita Anne Hidalgo perdeu a paciência com a incapacidade do governo de fornecer uma solução permanente para tratar de um problema que já está em curso há meses. A abertura do centro em Paris foi anunciado, então, sem o aval oficial do governo. "Para nós, é uma questão de honra receber migrantes de forma digna", afirmou recentemente Dominique Versini, responsável na prefeitura parisiense por questões relacionadas à infância, família e luta contra exclusão. "Precisávamos de uma solução de longo prazo e não podemos ter essas pessoas vulneráveis vivendo nas ruas com um tempo cada vez mais úmido e frio a cada dia." Desde que o afluxo de refugiados em direção à Europa se acelerou no último verão, chegam diariamente entre 50 e 80 migrantes à capital francesa. Milhares têm acampado em diferentes partes da cidade. A maioria deles é formada por homens provenientes de países como Iraque, Afeganistão, Eritreia e Sudão. O governo pôs abaixo 28 desses acampamentos improvisados, transferindo os migrantes – 19 mil no total – para abrigos provisórios. Queda de braço No ano passado, o governo se opôs a uma primeira tentativa de Hidalgo de abrir um centro de acolhimento, mas acabou aceitando a iniciativa. O Estado vai investir mais de 8 milhões de euros no primeiro ano: 20% do investimento inicial e metade dos custos de funcionamento. O governo também se comprometeu a fornecer e pagar por 1,2 mil vagas adicionais em abrigos provisórios a cada mês. Elas são necessárias para assegurar que os migrantes possam seguir em frente depois de dez dias. A demanda por novas vagas pode aumentar agora que o acampamento improvisado conhecido como "Selva de Calais" está sendo desmontado e fechado, com os migrantes sendo transferidos para abrigos em todo o país. Para Versini, o novo centro em Paris pode se tornar modelo. "Esta é a melhor maneira de lidar com a situação", disse ela, acrescentando que a França precisa ao menos de três ou quatro centros de realocação como aquele a ser inaugurado na capital francesa. Temores Para alguns residentes da região de Porte de la Chapelle, onde a nova unidade está sendo montada, a solução está longe de ser ideal. O bairro operário é uma das áreas mais pobres da capital francesa, conhecida por seus problemas com dependentes de drogas, prostituição, vendedores de rua e táxis ilegais, e jovens violentos. Farid Ouahabi, gerente do restaurante Le Pari'Go, afirma que a construção do centro de acolhimento e realocação na região significa adicionar mais miséria a um mundo de pobreza. "Eles tinham que construir este centro no nosso bairro?", indaga Ouahabi, enquanto serve café no balcão. "Todos os meus clientes estão reclamando sobre o projeto. Estamos cansados da situação e tememos que ela fique ainda pior." Do outro lado da rua, Fatiha trabalha numa creperia. Quando seu trabalho termina, às 22h, ela tem que pegar o carro num estacionamento subterrâneo a 200 metros dali. "Minha viagem para casa já é um pouco assustadora, mas agora tenho medo de que ela fique ainda mais tenebrosa – especialmente se o centro for ocupado somente por homens", afirma. Muitas das suas clientes estão com medo do que está por vir – principalmente devido a suas crianças, acrescenta Fatiha. "Uma cliente me disse que sua filha de 13 anos lhe pediu para que ela a buscasse na escola todos os dias a partir de agora, já que a menina não se sentia mais segura." "Projeto inovador" Bruno Maurel, da associação de caridade Emmaüs Solidarité, operadora do campo de acolhimento e realocação de refugiados, diz que as pessoas devem parar de ter medo dos migrantes sem uma razão plausível. "As coisas estão indo muito bem em todas as unidades para onde os 19 mil migrantes foram deslocados a partir de Paris", diz Maurel à DW. "Estamos criando algo realmente inovador aqui em Paris e deveríamos ser positivos sobre isso", conclui o ativista. Mas os moradores locais dizem que estão ansiosos para ver outro projeto no local: um campus universitário. As obras na Universidade Concordet de Ciências Sociais e Humanas estão planejadas para começar em março de 2018. Agora, muitos temem que o projeto seja adiado ou cancelado. "É como se tivesse havido um vislumbre de esperança no fim do túnel com ao menos um projeto positivo para o bairro, e agora tudo está se escurecendo novamente", diz Abdelhakim Balit, um livreiro que trabalha na região. Dominique Versini diz que o projeto será construído a tempo. "Nosso centro de acolhimento vai permanecer ali somente por 16 meses e já estamos procurando um novo local para depois", explica. "A unidade foi especialmente concebida para isso, em módulos, de forma que possa ser facilmente montada e desmontada." Versini afirma ainda que as pessoas contrárias ao centro são uma minoria. "A maioria das pessoas quer ajudar e está contente que, finalmente, os migrantes não vão mais acampar nas ruas."

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