Absorventes contra evasão escolar em Uganda

Simone Schlindwein (fc)

No país africano, uma em cada dez meninas não vai à escola durante a menstruação por não ter acesso a produtos de higiene feminina. Ativistas buscam alternativas, e campanha de crowdfunding vira tema político.Dezenas de crianças vestidas com seus uniformes brancos e azuis estão sentadas em suas carteiras nas salas de aula. O sino toca na escola primária CARE, na capital de Uganda, Kampala, marcando o fim da aula. Mas, em vez de irem para casa, cerca de uma dúzia de garotas permanece na sala, em uma das turmas. Elas retiram as mesas e, no lugar delas, colocam máquinas de costura. As adolescentes buscam tesouras, pedaços de tecido e moldes. Sadat Nduhira comanda essa aula de costura incomum. O artista de 27 anos é familiar com uma questão que incomoda muitas meninas. Ele também cresceu num bairro pobre, e suas irmãs também ficavam longe da escola quando estavam menstruadas. Como artista, ele costuma experimentar com vários tipos de tecidos e materiais e, no ano passado, ocorreu-lhe que poderia ensinar as meninas a fazer absorventes higiênicos com toalhas velhas e algodão. Distribuição em outras escolas Em Uganda, uma em cada dez meninas não vai à escola durante a menstruação. Crianças de famílias pobres não têm condições de pagar por absorventes ou tampões higiênicos. Catherine Nantume vem de uma família carente, mas ela opera a máquina de costura com a confiança de uma especialista, enquanto outras meninas observam. "Eu sempre costumava faltar à escola, e isso me deixava muito triste porque eu ficava em casa e não fazia nada. Esse projeto me deixa muito feliz", afirma Nantume, enquanto posiciona um novo absorvente para ser costurado. Ela afirma que as meninas produzem muitos absorventes, e parte deles é distribuída gratuitamente em outras escolas de áreas rurais. Às vezes, elas ensinam as meninas de lá a fazê-los. "Talvez elas também venham a distribuir os absorventes para meninas de outros lugares", comenta. Sadat Nduhira também explica às garotas como elas podem reutilizar seus absorventes. Após o uso, eles devem ser imersos em água. Em seguida, devem ser devidamente lavados pela manhã e postos para secar ao sol. "Então, os absorventes devem ser passados com ferro muito quente para que as bactérias restantes sejam eliminadas", conta. "Por fim, devem ser guardados num local limpo para que permaneçam higiênicos." Falta de recursos do governo Menstruação e absorventes são um tema tabu em Uganda, mas, recentemente, eles se viraram objeto de um debate público caloroso, no qual até mesmo a elite política do país está se envolvendo. Durante a campanha eleitoral de 2016, o presidente Yoweri Museveni prometeu às escolas que elas receberiam absorventes de graça. E, assim, muitas mães votaram em Museveni, que nomeou sua esposa, Janet, ministra da Educação. Mas "mamãe Janet", como é carinhosamente chamada, foi obrigada a reconhecer que a promessa eleitoral de seu marido não era tão fácil de ser implementada. "O Estado ugandense não tem os fundos necessários para comprar absorventes higiênicos", afirmou Janet Museveni ao Parlamento em fevereiro de 2017. No país, a líder feminista Stella Nyanzi começou uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) nas redes sociais e quer coletar dinheiro suficiente para comprar 10 milhões de absorventes higiênicos reutilizáveis. Até agora, ela recolheu 13 milhões de xelins ugandeses, o equivalente a 3.270 euros. "Biologia é política – no fim, é tudo poder", constata Nyanzi. Ela lista como exemplo o exame de conclusão do ensino médio. As estatísticas mostram que garotas de famílias rurais pobres têm um desempenho pior do que o resto. Em cidades onde as famílias das garotas têm melhores condições financeiras, elas se saem tão bem quanto os meninos. Promessas quebradas e repressão Nyanzi diz ser irritante que as parlamentares e a ministra da Educação não consigam resolver a desigualdade sofrida pelas meninas pobres nas zonas rurais. "O governo faz promessas, mas não as cumpre", afirmou. Usando a hashtag #pad4GirlsUg nas redes sociais, Nyanzi tem criticado mulheres em postos de poder na Uganda, e isso já causou repercussões. Ela foi ouvida pela polícia porque teria supostamente insultado o presidente no Facebook. No aeroporto, ela foi impedida de viajar para a Holanda e colocada na lista de pessoas impedidas de voar. Ela acredita que pode ser presa a qualquer momento. Sua campanha por produtos de higiene feminina se tornou política e mostra como se tornaram draconianas as restrições sobre a liberdade de imprensa em Uganda.

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