Novo príncipe herdeiro, velho estilo na Arábia Saudita

Kersten Knipp (av)

Troca na linha de sucessão do trono chega em momento de turbulência, com o reino envolvido em pelo menos três graves crises. Indicações são de que Mohammed bin Salman manterá a linha dura - com o apoio dos EUA.Mohammed bin Salman é o novo príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Em clima solene, membros importantes da casa real participaram, na manhã desta quinta-feira (22/06), da cerimônia em que o filho de 31 anos do atual rei Salman foi declarado seu futuro sucessor e, portanto, herdeiro político. A decisão não surpreendeu: MBS, como costuma ser chamado, é considerado o filho preferido de Salman, o qual, antes mesmo de assumir o trono, em janeiro de 2015, já o incentivava intensamente. Quando ainda era governador de Riad, o atual rei nomeou Mohammed bin Salman seu conselheiro especial e, em seguida, chefe da corte do príncipe herdeiro, com status de ministro. Uma vez entronizado, Salman designou imediatamente o filho como ministro da Defesa – uma base ideal a partir da qual Mohammed pôde ampliar seu poder dentro da vastamente ramificada família real. O perdedor é Mohammed bin Nayef, sobrinho do rei e, até então, príncipe herdeiro. Exteriormente, ele aceitou com serenidade o afastamento, embora ela signifique que seu ramo familiar perde a sucessão direta ao trono. "Estou satisfeito", citaram-no os meios de comunicação sauditas. Perspectiva de continuidade A troca do sucessor no escalão máximo do reino chega numa época de extrema turbulência política. Há mais de dois anos a Arábia Saudita lidera uma aliança internacional, com maioria de países sunitas, que combate os rebeldes houthis no Iêmen. O responsável político por essa guerra de pouco sucesso militar, porém muito sangrenta, é justamente Mohammed bin Salman, que manterá o posto de ministro da Defesa. A Arábia Saudita se encontra, ainda, num conflito diplomático agudo com o vizinho Catar. Riad acusa Doha de apoiar grupos como a Irmandade Muçulmana, que considera terroristas. Além disso, os sauditas não aceitam a proximidade do Catar com o Irã, seu maior rival confessional e político. O conflito com Teerã também se reflete na política dos sauditas para a guerra da Síria, onde há muito se engajam pela deposição do presidente Bashar al-Assad, que é apoiado pelo Irã. A nomeação de Mohammed bin Salman como príncipe herdeiro em meio a essas três crises é um sinal de continuidade política, avalia o politólogo Rodger Shanahan, do Lowy Institute for International Policy em Sydney, na Austrália. "O fato de a questão da sucessão do trono ter sido definida nesta época é uma indicação de que a orientação será mantida no longo prazo", sobretudo por Mohammed ter se manifestado, até agora, como "defensor declarado de uma presença saudita forte na região". A linha de política externa exposta por ele numa entrevista à emissora de notícias saudita Al Arabiya, no princípio de maio, confirma essa visão. "Ninguém quer que a guerra continue", disse Mohammed bin Salman, referindo-se aos choques no Iêmen. No entanto, "não havia alternativa" quando, há mais de dois anos, o reino decidiu intervir militarmente no país vizinho: grupos terroristas atacaram o governo legítimo, e se a Arábia Saudita não tivesse interferido, seguramente teriam colocado em risco toda a região, afirmou o novo príncipe herdeiro saudita. Perpetuação da "iranoia"? Apesar de não mencionar a nação rival em conexão com a guerra no Iêmen, pouco mais adiante na entrevista Mohammed bin Salman deixou clara sua posição: "Como vamos poder nos comunicar com o Irã?", perguntou, retoricamente. Afinal, segundo ele, todo o sistema da República Islâmica se baseia na crença no Mahdi, o sucessor de Maomé que, segundo as profecias, virá à Terra nos anos que antecedem o fim dos tempos. Do ponto de vista ideológico, "o regime iraniano não vai mudar seu posicionamento da noite para o dia. Do contrário, não teria mais qualquer legitimidade", prosseguiu Mohammed – deixando de lado o fato de que também a Arábia Saudita é alvo de críticas internacionais por sua religião oficial extremamente conservadora, o wahhabismo. O reino tem sido repetidamente acusado de exportar sua ideologia fundamentalista para grande parte do mundo, inclusive para a Europa. O cientista político Sebastian Sons acredita que, em relação ao Irã, o regime em Riad seja movido por uma "desconfiança que de vez em quando resvala para um ódio paranoide, uma espécie de 'iranoia', ou obsessão". O especialista em Arábia Saudita do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP) vê a política de poder como motivação central para as tensões entre os dois Estados. "Os pesos-pesados se veem como número um da região e não toleram nenhum rival do seu lado. Eles querem poder, e não querem partilhá-lo com outros, muito menos com o odiado adversário." É pouco provável que esse estilo na política externa vá mudar com o novo príncipe herdeiro e futuro rei da Arábia Saudita. Consta que ele tem bons contatos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o qual optou por um curso de confrontação declarada com Teerã. Mohammed bin Salman deve se sentir fortalecido em sua política.

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