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Novo príncipe herdeiro, velho estilo na Arábia Saudita

Kersten Knipp (av)

22/06/2017 12h41

Troca na linha de sucessão do trono chega em momento de turbulência, com o reino envolvido em pelo menos três graves crises. Indicações são de que Mohammed bin Salman manterá a linha dura - com o apoio dos EUA.Mohammed bin Salman é o novo príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Em clima solene, membros importantes da casa real participaram, na manhã desta quinta-feira (22/06), da cerimônia em que o filho de 31 anos do atual rei Salman foi declarado seu futuro sucessor e, portanto, herdeiro político.A decisão não surpreendeu: MBS, como costuma ser chamado, é considerado o filho preferido de Salman, o qual, antes mesmo de assumir o trono, em janeiro de 2015, já o incentivava intensamente. Quando ainda era governador de Riad, o atual rei nomeou Mohammed bin Salman seu conselheiro especial e, em seguida, chefe da corte do príncipe herdeiro, com status de ministro.Uma vez entronizado, Salman designou imediatamente o filho como ministro da Defesa – uma base ideal a partir da qual Mohammed pôde ampliar seu poder dentro da vastamente ramificada família real.O perdedor é Mohammed bin Nayef, sobrinho do rei e, até então, príncipe herdeiro. Exteriormente, ele aceitou com serenidade o afastamento, embora ela signifique que seu ramo familiar perde a sucessão direta ao trono. "Estou satisfeito", citaram-no os meios de comunicação sauditas.Perspectiva de continuidadeA troca do sucessor no escalão máximo do reino chega numa época de extrema turbulência política. Há mais de dois anos a Arábia Saudita lidera uma aliança internacional, com maioria de países sunitas, que combate os rebeldes houthis no Iêmen. O responsável político por essa guerra de pouco sucesso militar, porém muito sangrenta, é justamente Mohammed bin Salman, que manterá o posto de ministro da Defesa.A Arábia Saudita se encontra, ainda, num conflito diplomático agudo com o vizinho Catar. Riad acusa Doha de apoiar grupos como a Irmandade Muçulmana, que considera terroristas. Além disso, os sauditas não aceitam a proximidade do Catar com o Irã, seu maior rival confessional e político.O conflito com Teerã também se reflete na política dos sauditas para a guerra da Síria, onde há muito se engajam pela deposição do presidente Bashar al-Assad, que é apoiado pelo Irã.A nomeação de Mohammed bin Salman como príncipe herdeiro em meio a essas três crises é um sinal de continuidade política, avalia o politólogo Rodger Shanahan, do Lowy Institute for International Policy em Sydney, na Austrália."O fato de a questão da sucessão do trono ter sido definida nesta época é uma indicação de que a orientação será mantida no longo prazo", sobretudo por Mohammed ter se manifestado, até agora, como "defensor declarado de uma presença saudita forte na região".A linha de política externa exposta por ele numa entrevista à emissora de notícias saudita Al Arabiya, no princípio de maio, confirma essa visão. "Ninguém quer que a guerra continue", disse Mohammed bin Salman, referindo-se aos choques no Iêmen.No entanto, "não havia alternativa" quando, há mais de dois anos, o reino decidiu intervir militarmente no país vizinho: grupos terroristas atacaram o governo legítimo, e se a Arábia Saudita não tivesse interferido, seguramente teriam colocado em risco toda a região, afirmou o novo príncipe herdeiro saudita.Perpetuação da "iranoia"?Apesar de não mencionar a nação rival em conexão com a guerra no Iêmen, pouco mais adiante na entrevista Mohammed bin Salman deixou clara sua posição: "Como vamos poder nos comunicar com o Irã?", perguntou, retoricamente. Afinal, segundo ele, todo o sistema da República Islâmica se baseia na crença no Mahdi, o sucessor de Maomé que, segundo as profecias, virá à Terra nos anos que antecedem o fim dos tempos.Do ponto de vista ideológico, "o regime iraniano não vai mudar seu posicionamento da noite para o dia. Do contrário, não teria mais qualquer legitimidade", prosseguiu Mohammed – deixando de lado o fato de que também a Arábia Saudita é alvo de críticas internacionais por sua religião oficial extremamente conservadora, o wahhabismo. O reino tem sido repetidamente acusado de exportar sua ideologia fundamentalista para grande parte do mundo, inclusive para a Europa.O cientista político Sebastian Sons acredita que, em relação ao Irã, o regime em Riad seja movido por uma "desconfiança que de vez em quando resvala para um ódio paranoide, uma espécie de 'iranoia', ou obsessão".O especialista em Arábia Saudita do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP) vê a política de poder como motivação central para as tensões entre os dois Estados. "Os pesos-pesados se veem como número um da região e não toleram nenhum rival do seu lado. Eles querem poder, e não querem partilhá-lo com outros, muito menos com o odiado adversário."É pouco provável que esse estilo na política externa vá mudar com o novo príncipe herdeiro e futuro rei da Arábia Saudita. Consta que ele tem bons contatos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o qual optou por um curso de confrontação declarada com Teerã. Mohammed bin Salman deve se sentir fortalecido em sua política.