Israel tenta inflamar questão iraniana

Às vésperas da decisão de Trump, Netanyahu faz apresentação teatral para acusar Irã de violar acordo nuclear. Denúncias encontram eco apenas nos EUA e são rejeitadas por monitores e potências europeias.O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tentou inflamar o debate sobre a questão nuclear iraniana ao acusar o regime dos aiatolás de mentir sobre seu programa atômico e, assim, violar o acordo selado com as potências ocidentais.

Israel sempre se opôs ao histórico acordo de julho de 2015, no qual o Ocidente aceitou aliviar as sanções contra o Irã em troca de o governo em Teerã congelar seu programa nuclear e se comprometer a não desenvolver armas atômicas.

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Só que o acordo está agora ameaçado: o presidente americano, Donald Trump, é um feroz crítico do pacto e ameaça retirar os EUA dele, caso não haja negociações. Uma decisão do magnata é esperada para o dia 12, quando ele tem que definir se renova ou não o alívio às sanções contra o Irã.

"Os líderes do Irã negam repetidamente a busca por armas nucleares", disse Netanyahu. "Hoje à noite eu estou aqui para dizer uma coisa: o Irã mentiu."

De forma teatral, numa apresentação em inglês, transmitida pela TV para todo o país, Netanyau puxou as cortinas para exibir estantes com supostamente mais de 55 mil arquivos relacionados ao programa nuclear iraniano, roubados por Israel numa operação de inteligência em Teerã em janeiro.

Netanyahu disse que a apreensão confirma que o Irã mentiu por anos sobre a natureza de seu programa nuclear. Isso, porém, jamais foi contestado pelas potências signatárias: o acordo se concentrou em evitar futuros esforços rumo a armas atômicas e existe, como destacaram lideranças europeias nesta terça, justamente para consertar a falta de confiança entre as partes envolvidas.

O premiê afirmou que o Irã "continuou a preservar e expandir seu conhecimento sobre armas nucleares para uso futuro", mas não apresentou provas disso. Segundo ele, os iranianos transferiram seus arquivos para "um local altamente secreto em Teerã".

Discurso afinado com EUA

O discurso logo encontrou eco no governo Trump. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, estava em Tel Aviv no dia da apresentação, e o presidente disse, em Washington, que as palavras de Netanyahu provam que ele "estava 100% certo" sobre o "pior acordo " já assinado.

Enquanto Israel se opõe ao acordo, os principais aliados europeus de Washington pedem ao governo Trump que não o abandone e argumentam que o Irã está cumprindo seus termos. Nos últimos dias, uma sucessão de líderes, como a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron, foi até a Casa Branca tentar convencer Trump.

A apresentação de Netanyahu foi recebida com rechaço pelo Irã, por defensores do acordo e pelas partes responsáveis por monitorar sua implementação.

O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã afirmou que as palavras de Israel são "infantis e ridículas" e buscam afetar a decisão de Trump sobre o acordo nuclear. As alegações, segundo Teerã, são "velhas, sem conteúdo e vergonhosas".

A AIEA, agência de vigilância nuclear das Nações Unidas, disse que vai avaliar novas informações relevantes, mas citou um relatório de três anos atrás segundo o qual não haveria indicações críveis de que o Irã buscou construir armas nucleares após 2009.

Ceticismo europeu

A Rússia pediu que seja comprovada a veracidade dos documentos. "Considero que isto não seja motivo para convocar uma reunião da comissão da AIEA, já que primeiro é preciso analisar esses 100 mil documentos para comprovar se são verídicos", disse Mikhail Ulyanov, embaixador russo perante as organizações internacionais em Viena. Ulyanov lembrou que os inspetores da AIEA não comunicaram nenhuma violação nos mais de dois anos de vigência do acordo nuclear.

A França pediu ao Irã uma cooperação total e transparência após as revelações do primeiro-ministro israelense, que, na opinião da diplomacia francesa, apenas reforçam a pertinência do acordo alcançado em 2015.

"Isso confirma que parte do programa nuclear iraniano não tinha fins civis, como a França e os seus parceiros constataram após as primeiras revelações de 2002", e essa conclusão, explica a nota, foi a que guiou a negociação do pacto de Viena de julho de 2015.

No mesmo tom se manifestou a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini. Segundo ela, o acordo foi estabelecido justamente devido à falta de confiança entre as partes envolvidas. "Caso contrário, não seria necessário um acordo nuclear", afirmou.

Acredita-se que Israel seja a única potência com armas nucleares no Oriente Médio, mas o país jamais reconheceu isso.

RPR/rtr/ap/ots

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