Como o Brasil pode diversificar as relações comerciais com a Alemanha

Como o Brasil pode diversificar as relações comerciais com a Alemanha - Balança comercial entre os dois países é negativa para o Brasil, que vende produtos primários e compra industrializados. Encontro de Lula com empresários em Berlim busca mudar isso - com o acordo Mercosul-UE como trunfo.Um dos principais parceiros comerciais do Brasil, a Alemanha é o último destino internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste ano. Neste domingo (03/12), o chefe do Executivo desembarcou em Berlim para compromissos que se estendem até terça-feira.

O objetivo oficial da viagem é estreitar a cooperação em trocas comerciais, fechar parcerias de pesquisa e unir forças no combate às mudanças climáticas. Um dos principais compromissos da missão do governo brasileiro em terras germânicas será nesta segunda-feira, quando Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participam do Fórum Empresarial Alemanha-Brasil.

Do lado alemão, confirmaram presença no evento o chanceler federal Olaf Scholz, do Partido Social Democrata (SPD), e o vice-chanceler e ministro das Finanças e Proteção Climática, Robert Habeck(Partido Verde).

De acordo com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), organizadora do fórum, as autoridades brasileiras e alemãs vão utilizar o encontro para discutir a abertura de novas oportunidades econômicas, de olho no acordo de livre-comércio Mercosul-União Europeia.

Balança desfavorável para o Brasil

A Alemanha está em quarto no ranking de parceiros comerciais do Brasil por volume de negócios, ficando em primeiro entre os países europeus. As relações econômicas entre os dois países, no entanto, são bastante claras: o Brasil exporta principalmente produtos primários, enquanto as importações do país germânico são majoritariamente de industrializados.

Isso faz com que a balança comercial penda sempre a favor da Alemanha. Em 2022, o saldo ficou negativo em 6,5 bilhões de dólares para o Brasil, com 12,8 bilhões de dólares em importações e 6,3 bilhões de dólares em exportações na relação bilateral. De 2004 a 2022, a relação econômica Brasil-Alemanha teve um crescimento expressivo até o início da década de 2010, quando começou a cair, até voltar a crescer a partir de 2021.

Naquele ano, 0,6% dos fornecimentos de países estrangeiros ao mercado alemão eram brasileiros – número que foi de 0,7% em 2003 e chegou a 1% em 2013. Já a Alemanha tinha 5,2% da participação do mercado de fornecedores no Brasil, depois de alcançar 8,4% da fatia do comércio brasileiro em 2003 e cair para 6,2% em 2013. Os dados são do Trade Map do International Trade Centre (ITC).

"Nos últimos anos, Brasil e Alemanha perderam relevância mútua como fornecedores, esta última, em especial, devido à forte competitividade chinesa", explica Igor Celeste, gerente de Inteligência de Mercado da ApexBrasil.

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Ele lembra que mais da metade do que o Brasil vende para a Alemanha se concentra em commodities como café, farelo de soja e minério de cobre, o que aponta para a necessidade de exportações de maior valor agregado do país para a Alemanha – o que pode ser beneficiado pelo comércio entre indústrias, por exemplo.

"A Alemanha é o décimo maior investidor no Brasil e, entre as mil maiores empresas operando no Brasil hoje, 17 são alemãs. Nesse sentido, as oportunidades são enormes em setores de energias renováveis, saúde, mobilidade e infraestrutura. Todos esses setores podem usar o Brasil não apenas por meio de seu grande mercado interno, mas como plataforma de exportação para a Europa e para outras regiões", complementa.

Parcerias estratégicas

Outra entidade que estará presente nas conversas entre os dois países durante a viagem de Lula a Berlim é a Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo (AHK), que representa o empresariado alemão no Brasil desde 1916.

Como explica Barbara Konner, vice-presidente da AHK São Paulo, o Brasil, como único parceiro estratégico da Alemanha na América Latina, pode ampliar sua presença no mercado germânico. Para isso, ela elenca como pontos principais a ratificação de um acordo de Bitributação entre Brasil-Alemanha, a conclusão do pacto econômico Mercosul-União Europeia, além de ações em pesquisa e inovação, principalmente no campo da sustentabilidade e da transição energética.

"[O Brasil] é o país predestinado a ser o grande fornecedor na área de energias limpas e renováveis para a Alemanha – e para o mundo", ressalta Konner, acrescentando que Alemanha e Brasil podem acelerar o processo de transição verde por meio de transferência de tecnologia e cooperação. Para isso, é preciso uma estratégia bilateral com foco na transição e na definição de padrões, como regulamentação para o mercado internacional de carbono.

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Um dos setores principais para essa transição energética, que se tornou ainda mais urgente com a invasão da Ucrânia pela Rússia, é o de hidrogênio verde (H2V), ressalta Igor Celeste, da ApexBrasil.

"União Europeia e Alemanha pretendem usar o combustível para alcançar neutralidade de carbono até 2050, mas não têm condições de produzi-lo na quantidade necessária. Nesse caso, o Brasil tem muito a contribuir, pois vem se preparando para se tornar um hub global dessa energia limpa", complementa.

Um estudo da empresa de consultoria empresarial americana McKinsey afirma que a demanda por H2V no Brasil pode atrair investimentos de 200 bilhões de dólares até 2040.

Acordo Mercosul-União Europeia

Extraoficialmente, o encontro dos líderes de ambos países deverá ter como ponto central o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que ficou emperrado nos últimos anos, mas tem nos governos de Berlim e Brasília dois dos principais interessados pela assinatura do tratado.

O próprio roteiro do presidente Lula aponta para essa direção. O presidente da República desembarca em solo alemão logo depois de uma incursão pelo Oriente Médio que terminou com a participação do Brasil na 28ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP28), em Dubai. Já no próximo dia 7 de dezembro, Lula estará no Rio de Janeiro para participar da Cúpula do Mercosul, no último evento do Brasil na presidência rotativa do bloco sul-americano.

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Segundo um estudo da ApexBrasil, as oportunidades de exportação para o Brasil com a redução das tarifas entre os dois blocos econômicos ultrapassariam os 3 bilhões de dólares de forma imediata. O levantamento coloca 242 produtos brasileiros capazes de competir de igual para igual no bloco europeu com as mudanças previstas no acordo.

"A Alemanha concentra 41% dessas oportunidades", aponta Igor Celeste. Setores que vão de alimentos e bebidas até autopeças se beneficiariam diretamente.

Do lado europeu, a AHK São Paulo estima que as empresas europeias poderão economizar até 4 bilhões de euros por ano em impostos e taxas, caso o acordo entre em vigor.

"Isso nos leva ao aspecto sustentável dessa cooperação: estamos falando de cumprir o Acordo de Paris e atuar ainda mais na frente de sustentabilidade", ressalta a vice-presidente da AHK São Paulo, Barbara Konner.

Negociações políticas

No entanto, um dispositivo proposto pelos europeus foi duramente rechaçado por Lula e pelos outros líderes sul-americanos ainda no primeiro semestre deste ano. O instrumento prevê sanções no caso de descumprimento de exigências ambientais, vetando exportações de produtos do Mercosul, como café e soja, produzidos em áreas desmatadas.

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Diferentemente da Alemanha, a França é um dos países que veem o acordo comercial dos dois blocos econômicos com críticas, temendo que seus produtores não consigam competir com os sul-americanos.

"Essa viagem é a última chance de fazer o acordo Mercosul-UE avançar", diz o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

Ele lembra que, como argumento para a proteção do meio ambiente, o governo brasileiro leva os números que indicam a queda de 22,3% do desmatamento entre 1º de agosto de 2022 e 31 de julho de 2023 em comparação com o mesmo período do ano anterior, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

"A Alemanha tem todo o interesse nisso, já que é o país mais industrializado na Europa. O que o Lula está fazendo na viagem é passar a bola para a União Europeia, esperando que a Alemanha coloque o peso nesse sentido. Porque, se não for agora, o acordo vai morrer", acrescenta, lembrando que, neste mês, a presidência do Mercosul passará para o Paraguai.

Para Lia Valls Pereira, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) e senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a ratificação do acordo também teria um efeito político que interessa aos dois países: o multilateralismo.

"É a ideia de que o acordo Mercosul-União Europeia não é só da Alemanha, mas da Europa, e que seria um reforço ao sistema multipolar e ao multilateralismo que os dois defendem", conclui.

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Autor: Fábio Corrêa

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