Argentina lembra 40 anos de golpe militar com passeata e pedidos de justiça

Buenos Aires, 24 mar (EFE).- Organizações de direitos humanos da Argentina se manifestaram nesta quinta-feira para retomar seus pedidos de justiça pela marca de 40 anos passados desde o golpe militar que deu início à ditadura no país, comemoração que neste ano teve como pano de fundo a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Associações políticas, sindicais e sociais percorreram o centro de Buenos Aires até se concentrarem na Praça de Maio, em frente à sede do governo, onde a líder das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, leu um documento conjunto.

"Após 40 anos do golpe genocida, nos sentimos novamente convocados a defender a democracia", declarou Carlotto antes de afirmar que "a mudança de governo está significando diariamente a vulneração de direitos".

Taty Almeida, representante das Mães da Praça de Maio da linha fundadora, foi a encarregada de encerrar a leitura do discurso, no qual afirmou que as grandes corporações tentam desestabilizar os governos democráticos da América Latina.

Além disso, criticou o acordo da dívida do governo de Mauricio Macri com os fundos credores e terminou o discurso com o lema da manifestação: "Sem direitos não há democracia".

Com o centro da capital completamente bloqueado e uma Praça de Maio lotada, milhares de manifestantes reivindicaram "memória, verdade e justiça" com cantos, tambores, bandeiras e cartazes com os rostos de muitas das 30 mil pessoas que, segundo números das organizações, desapareceram durante os "anos de chumbo", de 1976 a 1983.

"A manifestação será necessária a vida toda. É preciso reviver, por assim dizer, o primeiro dia", disse à Agência Efe Gastón Castillo, integrante da organização Filhos.

O caso de Gastón Castillo é singular. Ele é filho de um homem assassinado pela ditadura, mas por ser o sétimo filho homem, seu padrinho de batismo era Jorge Rafael Videla, o general que há 40 anos deu o golpe contra o governo de María Estela Martínez de Perón.

Desde 1974, uma lei garante o apadrinhamento por parte do presidente da Argentina em cargo para o sétimo filho homem ou mulher de uma pessoa do mesmo sexo. Em 2010, Castillo conseguiu fazer com que o então cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje o papa Francisco, anulasse o apadrinhamento de Videla.

"Estamos lembrando os desaparecidos. Mataram nossos filhos e roubaram nossos netos", disse Buscarita Roa, integrante das Avós da Praça de Maio, entidade dedicada à busca das crianças apropriadas ilegalmente durante o governo militar.

Desta vez, a manifestação anual de aniversário do golpe teve duas peculiaridades: a visita de Obama à Argentina e um novo cenário político no país, com a chegada de Mauricio Macri à presidência argentina em dezembro, cujo perfil conservador despertou receios entre alguns organismos humanitários.

"Esperamos que Macri tenha a dignidade de continuar lembrando o que ocorreu na ditadura porque 40 anos não é um dia", comentou Roa.

Obama e Macri visitaram nesta quinta-feira o Parque da Memória, um passeio público em Buenos Aires criado para prestar homenagem aos desaparecidos durante a ditadura.

Macri enfatizou na homenagem que "justiça e verdade são duas palavras que têm um profundo significado para o povo argentino", ao lembrar dos que "pagaram com suas vidas a violência e intolerância" da ditadura.

"Nunca mais", disse Obama, ao expressar em espanhol uma das palavras de ordem mais emblemáticas dos direitos humanos na Argentina e sua vocação de evitar que se repitam as atrocidades cometidas.

O presidente americana também admitiu que seu país "demorou" a defender os direitos humanos na Argentina e prometeu abrir os documentos militares relacionados à ditadura argentina após um pedido do próprio Macri, medida que os organismos humanitários reivindicavam há anos.

Para Martín Castillo, integrante da Filhos, a visita de Obama é "uma vergonha" e seu anúncio é "uma mentira", já que acredita tudo "poderia ter sido feito antes".

Alguns cartazes levados pelos manifestantes mostravam a imagem do líder americano junto à palavra "genocida" e outros gritavam: "Fora yankees, vamos voltar", mas a manifestação ocorreu sem incidentes e em um ambiente festivo.

O governo da Argentina anunciou hoje que o Ministério das Relações Exteriores revelará 847 documentos sobre violações dos direitos humanos durante a ditadura.

"Esta revelação evidencia a vontade do governo de garantir o direito à verdade", afirmou a Chancelaria em comunicado.

Os documentos esclarecem atos repressivos e violações aos direitos humanos, permitem conhecer a gestão de governo e possibilitam colaborar com as solicitações judiciais em curso.

Entre a documentação se destacam relatórios de embaixadas que se referem a denúncias sobre violações aos direitos humanos na Argentina e outros sobre casos notificados à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

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