Documentário investiga "fábrica" de falsos espiões norte-coreanos na Coreia do Sul

Atahualpa Amerise

Em Seul

  • Jean Chung/The New York Times

    Yu Woo-sung deixou a Coreia do Norte e foi preso na Coreia do Sul em 2013 por espionagem, em Seul

    Yu Woo-sung deixou a Coreia do Norte e foi preso na Coreia do Sul em 2013 por espionagem, em Seul

A Coreia do Sul condenou durante décadas inocentes acusados de espionagem com provas fictícias e confissões forçadas. Os casos de "falsos agentes norte-coreanos", que chegam perto de cem desde os tempos da ditadura até hoje, viraram tema de um polêmico documentário que estreará nos cinemas.

Durante o governo de Park Chung-hee nas décadas de 60 e 70, o serviço de inteligência sul-coreano, chamado então de KCIA, começou a apontar como "espiões comunistas" e condenar à prisão ou à morte qualquer suspeito de levantar a voz contra a junta militar que estava no poder.

No atual governo de Park Geun-hye, filha do ditador e eleita nas urnas em 2011, o serviço de inteligência - agora chamado NIS - também criou falsos espiões, neste caso pegando desertores norte-coreanos como bodes expiatórios. A trama, revelada nos tribunais, é explicada com detalhes em "Spy Nation".

O longa-metragem produzido pelo jornalista Choi Seung-ho pela plataforma independente Newstapa, que chegará aos cinemas sul-coreanos neste mês e ao festival americano Sundance no ano que vem, conta histórias como a de Yu Woo-sung, um norte-coreano de etnia chinesa que fugiu para Coreia do Sul em 2004 com apenas 23 anos.

Este refugiado se adaptou excepcionalmente bem a seu novo ambiente até o ponto de trabalhar como funcionário na prefeitura de Seul, mas em 2013 começou seu pesadelo. O NIS o prendeu por considerá-lo um espião da Coreia do Norte.

Após vários meses na prisão, Yu foi absolvido pela Justiça. O suicídio e a nota de arrependimento deixada por um dos agentes envolvidos mostraram que os serviços de inteligência tinham falsificado documentos e extraído confissões falsas de sua irmã para criar um bode expiatório sob medida.

Yu Woo-sung tinha dois pontos fracos para se transformar em um falso espião: era de origem chinesa, e sua irmã recém-chegada à Coreia do Sul permanecia reclusa pelo NIS para ter sua identidade comprovada.

"Os agentes a forçaram a confessar que seu irmão era um espião norte-coreano sob a ameaça de deportá-los se não o fizesse", disse Choi.

Após o escândalo do caso de Yu em 2014 foi revelado o de Hong Kang-cheol, desertor norte-coreano de 43 anos que foi detido e coagido durante 84 dias até assinar uma confissão na qual garantia ser um espião do regime do qual tinha fugido em busca de liberdade. No entanto, no final a Justiça também o absolveu sem acusações.

A busca de bodes expiatórios é habitual nas ditaduras, mas que sentido tem em um sistema democrático como o da Coreia do Sul? O diretor de "Spy Nation" oferece algumas pistas.

"Se o NIS não pode pegar espiões, perde sua função principal", explicou, convicto ainda de que o governo procura manter vivo entre a população sul-coreana o medo da Coreia do Norte.

Choi Seung-ho também lembra que os funcionários que pegam espiões "recebem recompensas, medalhas e um futuro espaço no Cemitério Nacional onde jazem os heróis da pátria", o que representa um grande incentivo para levar os interrogatórios ao extremo e conseguir confissões sem se importar com sua veracidade.

O documentário também aborda os casos de "falsos espiões" durante os anos 60 e 70: estudantes, opositores políticos e ativistas de esquerda torturados, presos e condenados a morte pela KCIA após serem classificados como agentes da Coreia do Norte para cortar qualquer foco de dissidência contra Park Chung-hee.

A Comissão da Verdade e da Reconciliação e a Fundação da Verdade criadas na década passada provaram a inocência de quase cem condenados, embora para muitos já fosse tarde, porque tinham morrido.

No entanto, outros ficaram no esquecimento, e o número real de vítimas estimado é muito maior. O sexagenário Kim Seung-hyo, outro dos protagonistas de "Spy Nation", nunca apresentou um processo e, por isso, seu nome ainda não saiu da lista de espiões norte-coreanos para entrar na de vítimas da repressão de Seul.

Kim estudava na Universidade Nacional de Seul quando os agentes da KCIA o prenderam em um de seus calabouços sob suspeitas de liderar um movimento estudantil.

Cruéis torturas, uma falsa confissão forçada e sete anos de prisão lhe causaram um grave transtorno mental que o obrigou a passar grande parte de sua vida em hospitais psiquiátricos, como mostra o documentário.

Velhos amigos tentam convencê-lo a recorrer aos tribunais para provar sua inocência, mas Kim, que vive no Japão, se mostra reticente a retornar à Coreia do Sul, um país o qual renega abertamente.

"Quero esquecer esses tempos obscuros, esses dias que foram como um inferno para mim", lamentou.

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