Iraquianos seguem divididos sobre Saddam Hussein 10 anos após sua execução

Bagdá, 29 dez (EFE).- Dez anos depois da execução do ex-presidente Saddam Hussein, o Iraque segue dividido e imerso no caos, com a irrupção do Estado Islâmico (EI) e a operação para expulsar este grupo terrorista do país.

Saddam foi executado na forca no amanhecer de 30 de dezembro de 2006 em Bagdá, após ser declarado culpado por um tribunal iraquiano da morte e tortura de 148 opositores xiitas em 1982, mas também era julgado pelo "genocídio" do povo curdo e outros "crimes contra a humanidade" e "crimes de guerra".

As duas décadas em que o governante sunita esteve à frente do país estiveram marcadas por uma forte repressão e três guerras, que deixaram cicatrizes que ainda se mantêm abertas na sociedade iraquiana e que também cobraram um preço caro da própria família do ditador.

Abu Taha al-Tikriti, de 61 anos, um parente de Saddam, disse à Agência Efe que a família do ex-mandatário se viu afetada pela derrocada de seu regime e afirmou que muitos iraquianos lhes perseguem.

"Agora estamos pagando o preço dos erros de Saddam e de seu partido Al-Baath", comentou Al-Tikriti à Efe.

A situação do clã do qual fazia parte o ex-presidente, que se chama Albu Nasser, se complicou a partir do momento em que os jihadistas tomaram a província de Saladino, cuja capital é Tikrit e onde se encontra a cidade Al-Awja, onde Saddam nasceu em 1937.

Seu pior momento, no entanto, chegou quando as milícias xiitas da Multidão Popular realizaram a operação para recuperar a região das mãos do EI, o que obrigou muitos dos membros deste clã, que se concentravam em Al-Awja, a deslocar-se.

"Muitas de nossas casas foram destruídas, roubadas e queimadas com a chegada da milícias xiitas. Os moradores de Al-Awja são agora proibidos de voltar após a concentração da Multidão na região porque muitos deles foram acusados de cooperar com os armados (jihadistas) do Daesh (acrônimo árabe do EI)", relatou Al-Tikriti.

Em Al-Awja, o sepulcro de Saddam foi profanado pelas facções xiitas, mas seu corpo tinha sido transferido antes a outro lugar por membros de sua família, segundo Al-Tikriti.

A instabilidade política no país e o caos que provocou a aparição do EI, que conquistou amplos territórios no norte do país em 2014, também alimentou o sentimento de saudade pelo governo de Saddam em parte da população.

"A situação tão difícil no Iraque nestes dias e a má administração dos governos desde 2013 fizeram com que o povo sinta saudades da época de Saddam e a considerem como dias de riqueza", comentou à Efe Naji Ibrahim, ex-membro do partido dissolvido Al-Baath, que era liderado por Hussein.

A nostalgia pela época do ditador, segundo Naji, "não é porque Saddam foi um anjo, mas porque os que governaram após sua época causaram caos, deterioração da segurança, pobreza, desemprego e aumento do sectarismo".

Nas ruas, a lembrança de Saddam Hussein gera rejeição, mas muitos, devido à convulsa situação do país, atenuam a lembrança da repressão que iniciou entre 1979 e 2003.

Ali al Tamimi, um cidadão da região de Al Dachil, no norte de Bagdá, opinou que "Saddam obteve o que merecia porque sua política e guerras sucessivas foram as que levaram o Iraque à beira do abismo".

Tamimi lembrou que Saddam executou milhares de civis do centro e do sul do Iraque, assim como milhares de curdos do norte do país. "Portanto ele merecia a execução", comentou.

Amar Nema, um jovem de 22 anos, que tinha apenas 12 quando Saddam foi executado, afirmou que o ex-presidente era "um carrasco e um tirano", mas acrescentou: "Os que vieram depois dele nos prometeram melhorar nossas vidas e oferecer mais serviços, mas tudo ficou em promessas".

Nema considera que o que acontece no Iraque atualmente "é o pior" em sua história, especialmente pela existência de "partidos religiosos" que lutam pelo dinheiro e o poder, embora ressalte que, no passado, todo o país criticava Saddam por ser um ditador.

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