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Últimos nômades de Mianmar, etnia moken é ameaçada pelo desenvolvimento

21/12/2018 06h02

Noel Caballero.

Ma Kyone Galet (Mianmar), 21 dez (EFE).- A caravana de embarcações dos moken permanece unida por cordas enquanto navega pelas águas do arquipélago Mergui (no sul de Mianmar), local de passagem desta etnia nômade, a única no país e cujas ancestrais tradições estão ameaçadas pelo desenvolvimento e pelas mudanças políticos.

As seis embarcações de madeira são como uma colmeia, onde vivem famílias de dez a 12 membros, com esteiras para dormir, uma cozinha rudimentar e um local para guardar sua pesca, o principal meio de subsistência.

Após avistar um navio turístico, uma jovem solta uma das canoas e se aproxima a remo acompanhada por uma mulher com o objetivo de trocar com a tripulação peixes e alguns búzios por bens de consumo como macarrão desidratado, arroz e sabão.

Em seguida, voltam à caravana e empreendem a viagem para uma das centenas de baías desabitadas de Mergui, onde se refugiam de olhares alheios.

"Os moken são pessoas tímidas que raras vezes se relacionam com outros grupos", comentou Giorgi, guia birmanês que dirige uma expedição organizada pelo arquipélago formado por 800 ilhas, a maioria desabitadas.

Esta etnia, também conhecida como ciganos do mar, ou "salone" em birmanês, vive no mar de Andaman entre Mianmar e Tailândia e em poucas ocasiões pisa em terra firme, geralmente na época das monções.

Durante séculos, os moken aperfeiçoaram técnicas de pesca submarina com instrumentos e conseguem permanecer submersos prendendo a respiração durante muitos minutos.

No entanto, na última década o número de moken que mantêm os costumes nômades diminuiu drasticamente por conta da exploração das grandes embarcações pesqueiras e dos planos das autoridades de instalá-los em assentamentos permanentes.

Dos 12 mil ciganos do mar que habitavam as águas de Mergui há uma década, existem atualmente menos de 2 mil, segundo dados de Ministério de Assuntos Étnicos de Mianmar.

Em uma cruel mudança de rumo da história, muitos destes pescadores acabaram sendo recrutados por estes mesmos pesqueiros que, com suas redes profundas e com a pesca com explosivos, destruíram seu tradicional habitat.

"O número de capturas era cada vez menor até que chegou um momento em que não conseguia manter minha família. Por isso decidimos nos assentarmos e comecei a trabalhar em um pesqueiro", contou Shar, um dos líderes do povoado Ma Kyone Galet.

A extinta junta militar birmanesa tentou no final do século passado implementar um plano - mais tarde fracassado - para obrigar os moken a se assentarem em povoados estabelecidos pelas autoridades ao longo dos 400 quilômetros do arquipélago.

Os membros da etnia também foram proibidos de trabalhar em áreas protegidas e de cortar as enormes árvores que servem para fabricar suas tradicionais embarcações, os "kaban", já desaparecidos.

Apesar de serem reconhecidos pela lei de cidadania de 1982, as autoridades falharam também na hora de expedir os documentos de identidade dos ciganos do mar por conta da falta de certidões de nascimento, já que as mulheres dão à luz nos botes.

A condição de apátridas torna os moken ainda mais vulneráveis a discriminações, à exploração e aos abusos dos seus direitos, além de presas fáceis para os traficantes de pessoas.

Naing That Lwin, ministro de Assuntos Étnicos, cobrou no ano passado a tomada de medidas legais e econômicas para ajudar a preservar as tradições moken, que correm risco de desaparecer.

"Os moken não acreditam em Buda, são animistas e professam suas próprias divindades marinhas. Com o assentamento nos povoados, mais e mais moken começaram a praticar o budismo", comentou o guia Giorgi na entrada do templo de Ma Kyone Galet. EFE