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Conteúdo publicado há
10 meses

Medo e ansiedade alimentam onda de desinformação sobre crimes na pandemia

Policia da França, assalto em agência bancária - Sameer Al-Doumy
Policia da França, assalto em agência bancária Imagem: Sameer Al-Doumy

Ítalo Rômany

18/08/2020 04h02

Durante a pandemia, falsas histórias envolvendo crimes estão sendo uma forma comum de desinformação. Plataformas de checagens desmentiram ao menos 131 postagens enganosas desse tipo, em 36 países, com destaque para Índia (24 conteúdos verificados), Estados Unidos (19), Espanha (12) e Brasil (9). As publicações vão desde relatos de pessoas que teriam se aproveitado do clima de insegurança para facilitar atividades ilícitas até supostos assassinatos de pesquisadores que buscavam a cura da Covid-19.

Os primeiros boatos desse tipo surgiram em fevereiro, nos Estados Unidos. Por lá, circulou uma informação de que um homem de ascendência asiática, infectado com o novo coronavírus, foi preso porque estava assaltando pessoas e ameaçando tossir no rosto das vítimas. A imagem foi publicada originalmente em um site de humor. Contudo, usuários de redes sociais compartilharam a notícia como se fosse verdadeira.

Na Califórnia (EUA), outra informação compartilhada no Facebook dizia que impostores vestindo trajes de proteção estavam assaltando residências. Segundo a publicação, os supostos criminosos iam de porta em porta dizendo que estavam verificando a temperatura dos moradores, numa tentativa de controlar os casos de Covid-19 na região. O post, compartilhado por mais de 29 mil pessoas, foi desmentido pela polícia local.

Rumores similares se espalharam por outros países - ao menos 16 peças foram desmentidas. No Brasil, um vídeo enganoso trazia uma denúncia de assaltos que supostamente aconteceram em Belo Horizonte e Goiânia. Os assaltantes estariam entrando nos prédios se passando por agentes de saúde, com a justificativa de realizar exames para detectar o vírus nos residentes. As Secretarias de Segurança Pública de Minas Gerais e Goiás negaram a ocorrência desses crimes.

À plataforma de checagem Politifact, dos Estados Unidos, o professor de economia e marketing Niklas Myhr, da Chapman University (Califórnia), disse que esse tipo de conteúdo é comum ser compartilhado, principalmente em momentos de altos níveis de ansiedade e medo, como o da pandemia da Covid-19. "Os motivos podem variar de uma vontade genuína de ajudar os necessitados, a outras mais oportunistas, como tirar vantagem de pessoas emocionalmente vulneráveis", indicou o pesquisador.

Falsos assassinatos e prisões

Notícias falsas sobre crimes também foram usadas para espalhar teorias da conspiração sobre a doença. No dia 1º de abril, circulou como uma "brincadeira", em países árabes, a informação de que um médico tunisiano, que estava prestes a descobrir a vacina para Covid-19, foi morto na Alemanha. A notícia, claro, era falsa: o médico citado nem sequer existia. Contudo, na Grécia e no Marrocos, essa teoria da conspiração "evoluiu", ganhando novos detalhes, como a de que o professor foi "assassinado pela CIA".

No Brasil, um jornalista paraense precisou vir a público nas redes sociais para provar que estava vivo. Um vídeo que mostrava sua suposta execução, após denunciar o superfaturamento em uma obra durante a pandemia de Covid-19, viralizou nas redes sociais. As imagens, porém, mostravam o assassinato de um ex-policial no Equador, em 2 de janeiro deste ano.

Além de desinformação sobre crimes, também circularam boatos sobre prisões relacionadas ao novo coronavírus. Pelo menos 66 publicações desse tipo foram verificadas no mundo. No Paquistão, um vídeo que mostrava a polícia prendendo um homem foi compartilhado milhares de vezes nas redes sociais. A legenda dizia que o rapaz tinha sido detido porque desrespeitou um bloqueio nacional durante a pandemia na Itália. A afirmação era falsa. Na verdade, o registro mostrava a polícia prendendo um homem armado de faca em São Paulo, em março deste ano. Uma notícia falsa com base no mesmo vídeo também circulou no Brasil.

No México e em outros 13 países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Índia e Turquia, circulou que um pesquisador norte-americano foi preso por fabricar e vender o novo coronavírus para a China. O conteúdo citava Charles Lieber, chefe do Departamento de Química e Biologia da Universidade de Harvard, que de fato tinha sido preso. Mas o caso não tinha relação com a pandemia.

Até mesmo Bill Gates, alvo constante de notícias falsas durante a pandemia, "foi preso" segundo produtores de desinformação. Na Espanha e Nigéria, circulou a informação de que o fundador da Microsoft foi para a cadeia por "terrorismo biológico". A falsa prisão é parte de uma longa teoria da conspiração que, como não poderia deixar de ser, também envolve o uso de tecnologia 5G para controlar a população.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne 88 organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news