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Essenciais para contenção da covid, testes são alvos de desinformação

Foto: sonreir es gratis
Imagem: Foto: sonreir es gratis

Nathália Afonso

11/08/2020 04h01

Os testes para detectar a presença do novo coronavírus no organismo são fundamentais tanto em casos individuais quanto para a elaboração e monitoramento de políticas públicas contra a doença. Por causa disso, a desinformação sobre esse assunto pode ter efeitos particularmente graves. Em alguns casos, ela pode desencorajar potenciais infectados com a covid-19 de realizar exames. Em outros, os boatos podem jogar suspeitas infundadas sobre as estatísticas da doença. Desde o início da pandemia, plataformas de checagem de todo o mundo verificaram 149 conteúdos falsos sobre esse tema, em 41 países.

Os testes RT-PCR foram o principal tema dessas notícias falsas. Nesse exame, um cotonete longo, ou swab, é introduzido no nariz do paciente, atingindo a orofaringe. Lá, são coletadas amostras de secreções do aparelho respiratório. A partir desse material, é possível detectar a presença do RNA do novo coronavírus em laboratório. Por essa razão, ele é considerado por autoridades de saúde e pesquisadores o tipo de teste mais confiável para o diagnóstico da doença.

Esse procedimento, embora desconfortável, é absolutamente seguro. Contudo, em diversas partes do mundo circulou um conteúdo dizendo que o swab seria capaz de atingir a barreira hematoencefálica — uma membrana que protege o cérebro — e causar danos diretos ao cérebro. Essa afirmação, obviamente, não tem qualquer embasamento científico: para isso acontecer, o cotonete teria que atravessar parte do crânio. Ainda assim, conteúdos desse tipo foram verificados nos Estados Unidos, em Portugal, no Brasil e na França.

Na Alemanha, vídeos que circularam no YouTube atacavam a eficácia do teste. As peças diziam que os exames RT-PCR identificavam a presença de outros vírus no organismo e, por isso, o número de falsos positivos poderia atingir até 80% dos casos. Essa informação é falsa. Como esse tipo de teste verifica, especificamente, o RNA do patógeno, não há confusão com outros vírus. A ocorrência de falsos positivos a partir de contaminação, ou mesmo de falsos negativos, é possível, mas em casos absolutamente excepcionais.

Na mesma linha, checadores americanos desmentiram a informação de que a vacina da gripe poderia "confundir" os testes para o novo coronavírus. Conteúdos similares circularam também na Croácia, Dinamarca, Índia, Japão e Espanha.

Teorias da conspiração envolvendo os testes da covid-19 também apareceram durante a pandemia. Ainda nos Estados Unidos, boatos acusavam hospitais de falsificarem exames para aumentar artificialmente o número de casos. Já na Ucrânia, um texto sugeria que as ondas de 5G estariam afetando "endossomos", e que os testes estariam detectando esse tipo de partícula. Nada disso faz sentido.

O custo dos testes

Outro tipo comum de desinformação sobre os testes para covid-19 envolve os custos desses procedimentos. No Japão, por exemplo, circulou que exames para detectar a doença só seriam pagos pelo sistema público de saúde se o paciente testasse positivo. Em caso de resultado negativo, o governo cobraria da pessoa testada 80.000 yenes (cerca de R$ 4 mil). A informação não era verdadeira.

Falsas comparações sobre o custo dos testes também circularam em outros países. Na Índia, por exemplo, produtores de desinformação espalharam que os exames realizados no país eram significativamente mais caros do que em outros locais da Ásia, na Europa e nos Estados Unidos. A informação era falsa. Conteúdo com teor parecido também circulou na Croácia.

Já nos Estados Unidos, uma história real envolvendo esse tema foi tirada de contexto para espalhar desinformação. As publicações afirmavam que os testes no país estavam custando US$ 3,2 mil, mas esse era o custo total de uma internação específica de um paciente na Flórida, com todos os custos envolvidos no período em que ele permaneceu no hospital e não apenas do teste. O paciente, no fim, não estava com a doença. Essa informação falsa sobre o custo de testes nos EUA também circulou na Espanha e no Brasil.

Para driblar o suposto alto custo dos exames, uma "alternativa caseira" viralizou em diversas partes do mundo. Segundo o texto, um paciente precisaria somente prender a respiração por 10 segundos para descobrir se estava infectado. Caso falhasse, estaria contaminado pelo vírus. Esse "teste" não tem fundamento científico, mas foi amplamente divulgado na Tailândia, na Colômbia, nos Estados Unidos, na Indonésia, na Polônia, na Índia, no Quênia, no Paraguai e em Myanmar.

Estatísticas

Informações falsas sobre a realização de testes foram amplamente divulgadas para fins políticos e, nesse caso, a desinformação não partiu somente de desconhecidos. Autoridades de diferentes partes do mundo tentaram minimizar a gravidade da situação dizendo que o número de casos e mortes por covid-19 reflete apenas a quantidade de testes realizados.

Em maio, o vice-presidente da Conferência de Peritos Governamentais do Japão, Shigeru Omi, usou esse argumento. A informação é falsa: vários países que realizaram testagem em larga escala, como Coreia do Sul, Singapura e Taiwan, tiveram um número relativamente baixo de casos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o mesmo argumento. Em junho, ele declarou que o aumento no número de casos no país aconteceu somente porque mais testes estavam sendo realizados. Contudo, isso não era verdadeiro. Com o aumento na testagem, o percentual de resultados positivos caiu proporcionalmente.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea Coronavírus, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne organizações de checagem em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.