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Ciência ou política: Por que países europeus suspenderam a vacina da AstraZeneca/Oxford?

 Agência Europeia de Medicamentos (EMA) diz que a vacina é benéfica, mas baterá seu martelo na próxima quinta-feira (18) - iStock
Agência Europeia de Medicamentos (EMA) diz que a vacina é benéfica, mas baterá seu martelo na próxima quinta-feira (18) Imagem: iStock

16/03/2021 11h37Atualizada em 16/03/2021 12h01

Primeiro foram Áustria, Dinamarca e a Noruega. Depois, Espanha, França, Alemanha, Portugal, e nesta terça-feira (16), a Suécia. Um após o outro, países europeus suspendem a vacinação com o imunizante da AstraZeneca/Oxford desde a última semana, após casos de coágulos sanguíneos e tromboses.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) diz que a vacina é benéfica, mas baterá seu martelo na próxima quinta-feira (18). A interrupção acontece em meio a uma crise de fornecimento do laboratório anglo-sueco à União Europeia e levanta suspeitas de que a decisão não seja apenas científica.

A Áustria anunciou em 8 de março que estava suspendendo um lote específico da vacina AstraZeneca/Oxford, fabricado na Europa, depois da morte de uma enfermeira de 49 anos. Ela sofreu de "graves problemas de coagulação sanguínea", alguns dias após ter recebido o imunizante.

Três dias mais tarde, foi a vez de Dinamarca, Islândia e Noruega interromperem o uso do produto devido a relatos de formação de coágulos no sangue de alguns pacientes. Na Noruega, foi registrada a morte de duas profissionais de saúde, ambas vacinadas e com menos de 50 anos.

Após os primeiros anúncios, a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Agência Sanitária Europeia (EMA) e a Sociedade Internacional de Trombose foram a público defender a continuidade da vacinação, afirmando que as dezenas de casos relacionados a trombose registrados na Europa não estão necessariamente associados à vacina. Além disso, as reações são ínfimas, comparadas ao número de pessoas vacinadas.

"O pequeno número de registros de eventos trombóticos entre milhões de vacinados contra a Covid-19 não sugere um ligação direta [entre o imunizante e o problema]", afirmou a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia em um comunicado do dia 12 de março. A associação médica explicou que incidentes de trombose são comuns na população em geral e indicou ainda que nunca antes foi estabelecida relação comprovada entre trombose com qualquer imunizante.

Após o anúncio de que Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália e uma lista que não para de crescer também iriam parar sua vacinação "por precaução", a OMS voltou a insistir que o imunizante deve continuar a ser usado.

Nesta terça-feira, a presidente da EMA, Emer Cooke, explicou que todos os casos de problemas de coagulação relatados estão sendo avaliados pela agência e que, até o momento, não há indícios de que tenham relação com a vacina.

"O número de eventos tromboembólicos em geral nas pessoas vacinadas parece não ser maior do que o observado na população em geral", afirmou Cooker. "Em ensaios clínicos, tanto as pessoas vacinadas como as que receberam o placebo mostraram um número muito pequeno de desenvolvimento de coágulos sanguíneos", continuou.

A agência dará seu parecer final sobre a segurança da vacina da AstraZeneca/Oxford na quinta-feira (18).

Vacinação lenta e pressão por entrega

O presidente da Confederação dos Sindicatos Médicos Franceses, Jean-Paul Ortiz, criticou a paralisação da campanha de uma campanha de vacinação que já é considerada lenta.

"É uma decisão muito política que não tem hoje nenhuma base científica e que, como médico, isso me preocupa", afirmou. "Eu chamo atenção para o fato de que a Inglaterra vacinou 20 milhões de pessoas", sublinhou Ortiz.

A vacina da Astrazeneca/Oxford é um dos principais imunizantes usados na campanha contra Covid-19 pela União Europeia, ao lado do produto da Pfizer e da Moderna. No entanto, repetidos atrasos na entrega do laboratório anglo-sueco têm atrapalhado os planos europeus.

O bloco europeu deveria receber 180 milhões de doses no primeiro semestre de 2021. Mas recentemente o laboratório afirmou que só terá condições de entregar 100 milhões de doses neste prazo devido a problemas em sua linha de produção na Bélgica.

Os governos europeus aumentam o tom e pedem mais pressão sobre o laboratório que tem fornecido em grandes quantidades ao Reino Unido, um dos países com mais vacinados no mundo. Nesta terça-feira, a ministra francesa da Indústria, Agnès Pannier-Runacher, defendeu que a União Europeia ameace o laboratório com as cláusulas de quebra de contrato "para que eles sintam a pressão", durante uma entrevista para a rede Franceinfo.

Sem muitas doses de Astrazeneca nos refrigeradores, o custo de retardar a vacinação de sua população com este imunizante não é tão alto e poderia ser uma forma de pressionar pela aceleração nas entregas.

Por outro lado, esperar uma orientação da agência sanitária pode reduzir a desconfiança da população em relação às vacinas contra a Covid-19, um problema sério em alguns países do continente europeu.

Preocupação com a vacinação no resto do mundo

Enquanto isso, a OMS tenta garantir que a vacinação continue pelo mundo. "Não queremos que as pessoas entrem em pânico e, por enquanto, recomendamos que os países continuem a vacinar com a AstraZeneca", disse a cientista-chefe da instituição, Soumya Swaminathan.

O imunizante da da Astrazeneca/Oxford, um dos mais baratos, é essencial para o abastecimento das nações mais pobres pois faz parte do programa Covax.

O coronavírus, que continua a infectar milhares de pessoas no mundo diariamente, já matou 2,7 milhões de pessoas. Como destacou a presidente da EMA, até o momento, a vacina continua a ser muito mais benéfica do que todos os efeitos colaterais comprovados.

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