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Trabalho barato reflete um mundo no qual a "média" chegou ao fim

Fábrica na China estava produzindo mais de 10 mil iPhones por dia, após Apple reprojetar tela - Divulgação
Fábrica na China estava produzindo mais de 10 mil iPhones por dia, após Apple reprojetar tela Imagem: Divulgação

Thomas L. Friedman

28/01/2012 00h01

Em um ensaio intitulado “Making It in America” (algo como, “Tendo Sucesso nos Estados Unidos”), publicado na última edição da revista “The Atlantic”, o escritor Adam Davidson relata uma piada da região produtora de algodão dos Estados Unidos sobre o nível de automação atingido pelas fábricas de tecidos modernas. Segundo a piada, atualmente esse tipo de fábrica só possui dois funcionários: “um homem e um cachorro. O homem está lá para alimentar o cachorro, e o cachorro fica na fábrica para impedir que o homem se aproxime das máquinas”.

O artigo de Davidson é um dos vários textos recentes que argumentam que um dos principais motivos pelos quais os Estados Unidos têm atualmente um índice de desemprego tão elevado e remuneram tão mal a sua classe média é não apenas a grande queda da demanda provocada pela Grande Recessão, mas também o enorme aumento da globalização e o crescimento da revolução em tecnologia de informação, que estão, mais rapidamente do que nunca, substituindo trabalhadores norte-americanos por máquinas ou por trabalhadores estrangeiros.

Antigamente os trabalhadores que possuíam uma qualificação média e que desempenhavam tarefas de qualidade também média podiam contar com um estilo de vida médio. Mas, atualmente, a média acabou oficialmente. Ter qualidade média simplesmente não significa mais uma garantia da mesma renda que era obtida no passado. Isso não é mais possível em uma época na qual uma quantidade muito maior de empregadores conta com um acesso muito maior a mais mão de obra barata e de qualificação acima da média, bem como a equipamentos robotizados baratos, softwares baratos, automação barata e gênios baratos. Portanto, todo mundo precisa encontrar o seu próprio fator extra – a sua contribuição de valor única que faça com que o indivíduo se destaque na sua área profissional. A média acabou.

Sim, as novas tecnologias estão devorando empregos há muito tempo, e continuarão a devorar. Conforme o ditado, se os cavalos pudessem votar, jamais teriam surgido automóveis. Mas tem havido uma aceleração dessa tendência. Conforme observa Davidson, “De 1999 a 2009, as fábricas dos Estados Unidos demitiram trabalhadores tão rapidamente que elas quase anularam todos os ganhos dos 70 anos anteriores; cerca de um dentre cada três empregos no setor industrial – um total de cerca de seis milhões – simplesmente desapareceu”.

E nós ainda não vimos nada. Em abril do ano passado, Annie Lowrey, da revista “Slate”, escreveu a respeito de uma nova empresa chamada “E la Carte” que deverá fazer com que diminua a necessidade de contratar garçons e garçonetes: a companhia “criou uma espécie de iPad que permite que o consumidor faça o pedido e pague na própria mesa. A invenção, conhecida como Presto, que foi criada por um grupo de engenheiros do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), poderá ser encontrada em breve em um restaurante próximo ao leitor...

O cliente seleciona o prato que deseja e o coloca em um carrinho de pedidos. Dependendo das preferências do restaurante, o painel poderá mostrar informações nutricionais, listas de ingredientes e fotografias. O cliente pode fazer pedidos especiais, como por exemplo “quero molho nas laterais”, ou “dose de bacon quíntupla”. Após terminar, o pedido é remetido para a cozinha, e o Presto diz ao cliente quanto tempo a comida vai demorar.

Quem estiver entediado com os companheiros de mesa pode simplesmente jogar na maquininha. Ao terminar a refeição, o cliente paga por meio do tablet, dividindo a conta prato por prato, se desejar, e pagando da forma que desejar. E o recibo pode ser remetido por e-mail. Cada aparelho custa US$ 100 por mês. Se um restaurante servir refeições oito horas por dia, sete dias por semana, isso representará 42 centavos por hora por mesa – fazendo com que o Presto seja mais barato do que o mais barato dos garçons”.

E o que o iPad não faz de uma forma acima da média, um trabalhador chinês fará. Basta ver este parágrafo do ótimo artigo de Charles Duhigg e Keith Bradisher, publicado no “New York Times”, sobre o motivo pelo qual a Apple fabrica tantos dos seus produtos na China:

“A Apple reprojetou a tela do iPhone no último minuto, o que resultou em uma reformulação na linha de montagem. Novas telas começaram a chegar às fábricas chinesas quase à meia-noite. Um gerente imediatamente acordou 8.000 trabalhadores que estavam nos dormitórios da companhia. Cada funcionário recebeu um biscoito e uma xícara de chá, foi conduzido à área de trabalho e, dentro de meia hora, iniciou um expediente de 12 horas, inserindo telas de vidro nas estruturas dos aparelhos. Dentro de 96 horas, a fábrica estava produzindo mais de 10 mil iPhones por dia. 'A velocidade e a flexibilidade são impressionantes', disse o executivo. 'Nenhuma fábrica norte-americana é capaz de competir com isso'”.

E a automação não se restringe apenas às fábricas, explica Curtis Carlson, diretor executivo da SRI International, uma empresa do Vale do Silício que inventou o programa para o Apple iPhone conhecido como Siri, o assistente pessoal digital. “O Siri é o início de uma enorme transformação na forma como nós interagimos com bancos, companhias de seguro, lojas, companhias do setor de saúde, serviços de recuperação de informações e prestadores de serviços”.

Sempre haverá mudanças – novos empregos, novos produtos, novos serviços. Mas uma coisa da qual nós temos certeza é que, a cada avanço na globalização e na revolução da tecnologia de informação, os melhores empregos exigirão que os trabalhadores possuam um maior e melhor nível educacional para se colocarem acima da média. Eis aqui os mais recentes índices de desemprego do Departamento de Estatísticas do Trabalho relativos aos norte-americanos de mais de 25 anos de idade: aqueles que não têm diploma de segundo grau, 13,8%; os que têm diploma de segundo grau, mas que não fizeram curso superior, 8,7%; os que fizeram parte de um curso superior ou que têm um diploma intermediário (entre o segundo grau e o superior), 7,7%; e os que possuem bacharelado ou um título mais elevado, 4,1%.

Em um mundo no qual a média chegou oficialmente ao fim, muitas coisas precisam ser feitas para elevar o índice de emprego, mas nada seria tão importante quanto criar algum tipo de GI Bill (legislação norte-americana que garante o financiamento dos estudos de militares) para o século 21 que garanta que todos os norte-americanos tenham acesso à educação superior.