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Análise: "Lula ministro é a última cartada de Dilma"

Lula ministro salvará o governo Dilma? - Nelson Almeida/AFP
Lula ministro salvará o governo Dilma? Imagem: Nelson Almeida/AFP

Flávio Costa e Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

16/03/2016 13h56

Cientistas políticos avaliam que a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ministro-chefe da Casa Civil é uma espécie de "última cartada" da presidente Dilma Rousseff para se manter no cargo, hoje ameaçado. 

"A ida de Lula ao governo é uma espécie de última cartada, uma última tábua de salvação para recompor uma base de sustentação no Congresso, que está fragilizada, além do risco real de aprovação do processo de abertura de impeachment da presidente," afirma diretor acadêmico e professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), Aldo Fornazieri.

Para Fornazieri, o governo Dilma vive "em uma linha de desespero e em total paralisia", e a chegada de Lula pode trazer outro benefício que é a mudança da política econômica, o que foi inclusive uma precondição do ex-presidente para aceitar o cargo. "Pode ser um início de uma recomposição do ministério, com a chegada de outros nomes mais qualificados que os atuais para recuperar a credibilidade do governo Dilma, cujo segundo mandato ainda não começou", afirma.

Lula salvará o governo?

Não há uma garantia de que a presença de Lula evitará a saída do PMDB do governo e a abertura do processo de impeachment de Dilma no Congresso. Um dos motivos é a enxurrada de fatos políticos negativos que atingem o Palácio do Planalto. É o que diz o cientista político Marco Antônio Teixeira, da FGV (Fundação Getúlio Vargas). "Não se sabe se, para o Congresso Nacional, o carisma de Lula vai contar mais que a própria opinião pública", afirma.

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Teixeira lembra que a pressão popular, após as manifestações de domingo (13) pelo impeachment, que levaram milhões de brasileiros às ruas de todo o Brasil, aumentou fortemente sobre os deputados e senadores. E isso pode pesar em favor do avanço do impeachment no Congresso.

"A Dilma está muito acuada, não é vista mais pelos parceiros como uma viabilidade. As conversas entre o PMDB e PSDB, dizem isso com clareza, para não falar do ultimato do próprio do PMDB, que deu um prazo validade para ela", afirma a conselheira dos institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, Fátima Pacheco Jordão, especialista em Ciência Política pela London School of Economics and Political Science.

Como fica a presidente Dilma Rousseff?

A nomeação de Lula para a Casa Civil terá o efeito de colocar o ex-presidente no foco dos holofotes, deixando Dilma na posição de "coadjuvante", aponta Teixeira. Como se o presidente, após a nomeação para ministro, se tornasse, na verdade, o presidente efetivo do Brasil. Na avaliação do estudioso da FGV, a presença do ex-presidente preenche uma das principais lacunas de Dilma. "O que ela menos teve até hoje foi capacidade de articulação." 

"Trata-se uma renúncia branda de Dilma, é um fato, mas decorre da fragilidade e da incapacidade da presidente de conduzir o governo e aglutinar as forças políticas e econômicas", avalia Fátima Pacheco Jordão.

Imagem de Lula sofre um desgaste?

"A imagem do ex-presidente Lula já vinha numa trajetória de declínio, é o que mostra as últimas pesquisas sobre simulação de eleição presidencial, afirma o cientista político Rogério Schmitt, professor da Escola do Parlamento da Câmara de Vereadores de São Paulo. "A tendência é que a queda se acentue porque é quase inevitável fazer uma correlação entre a nomeação e as suspeitas que recaem sobre Lula no âmbito da Operação Lava Jato."

Para Marco Antonio Teixeira, a nomeação de Lula pode provocar nova reação popular, pois dá a impressão de que o ex-presidente busca o abrigo do governo para obter foro privilegiado e fugir do Ministério Público Federal e do juiz Sergio Moro, que conduz a Operação Lava Jato.

"Fica evidente que a nomeação mais tem relação com as investigações da Lava Jato do que com articulação política, papel que o ex-presidente poderia exercer como liderança do PT e já fazia antes de entrar oficialmente do governo", afirma o cientista político José Álvaro Moisés, diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo).