Diário de BordoRelatos sobre a estiagem no sertão

UOL visita cidades atingidas pela seca em quatro Estados do Nordeste

A ausência das defesas civis

 Entre os nove municípios nordestinos visitados pelo UOL, nenhum contava com uma Defesa Civil estruturada. Não há um planejamento sobre os previsíveis males causados pela seca –a ação é sempre a mesma: contratação de carros-pipa; geralmente a primeira e, muitas vezes, única solução. Há cidadãos que tentam, com pouca estrutura, ajudar como podem o sertanejo. É o caso de José Carlos Aragão, coordenador da Defesa Civil de Poço Redondo (SE). Lá não existe uma equipe, mas sim um “euquipe”. Ele visita as casas e pergunta o que está faltando, encaminha as demandas, cobra soluções e organiza a distribuição de carros-pipa. Apesar do bom exemplo, as prefeituras da região semiárida ainda parecem longe de manter medidas condizentes com o tamanho do problema da estiagem. 

O milagre da água

O sertanejo não espera grandes chuvas para ver a situação melhorar no semiárido. Todos falam que uma boa chuva, sem ser “trovoada”, tornaria o pasto menos seco e ajudaria a trazer de volta o alimento para os animais –mesmo que por poucos dias. Pode parecer mentira, mas o milagre da água pode ser comprovado na foto abaixo. Em meio a um cenário completamente seco, eis que surge o capim verde. O motivo: o local é abastecido com as gotas que caem de uma torneira de um poço artesiano, na zona rural do município de Poço Redondo (SE). 

O milagre da água - Beto Macário/UOL

A seca sem saques

 A seca sempre foi sinal de problemas de saques no sertão. Em 2012, mesmo com uma das maiores secas da história, não houve registro de invasões a supermercados ou ataques a caminhões que passam em rodovias. O economista Cícero Péricles comenta: “Essa diminuição atual dos efeitos negativos da seca, sem os saques das famílias, é decorrente de uma combinação entre políticas de obtenção e armazenamento de água, com as políticas sociais. Há mais de uma década que a política de água obteve ganhos consideráveis pela entrada das cisternas e barragens subterrâneas nos espaços da agricultura familiar, reforçando os antigos instrumentos, como os poços artesianos, tubulares, barreiros, açudes e adutoras. Por isso, a falta d’água das chuvas não mais mata de sede no sertão nordestino”. Na prática, o que se vê é um nordestino menos revoltado e com mais assistência, mesmo que com uma renda mínima. O que falta no sertão --visto a olhos nus-- são obras que levem água, como barragens, poços e adutoras.

Contra a seca, sertanejo aposta na fé

É raro não ouvir pelo menos uma citação a Deus quando os sertanejos falam sobre a estiagem. “Só Jesus mesmo para salvar”, diz Luís Carlos dos Santos, 80, do município de Pão de Açúcar (AL). “Deus é quem pode explicar essa seca, que nunca vi igual”, afirma José Carlos Nunes, 41, de Santa Brígida (BA). Enquanto uns pedem a Deus, outros apelam aos santos. “Rezo ao meu ‘padim Ciço’ e à santa Terezinha para que mandem água. Todo dia peço”, diz Maria Gildaci, 66, de Tacaratu (PE).

Contra a seca, sertanejo aposta na fé - Beto Macário/UOL

O lamento dos viúvos

"O cabra quando perde sua companheira no mundo sofre um bocado, viu", disse, sem conter as lágrimas, o aposentado Antônio Saturnino, 80, viúvo há 15 anos. Saturnino conta que perdeu a mulher por um câncer e sempre chora ao lembrar-se dela. "Viver assim, sozinho, sem ter ninguém que ajeite, é o maior sofrimento que há", diz, pouco querendo falar sobre a "maior seca" que já viu. Com a falta de perspectiva, os jovens acabam deixando o sertão e aí começa a assombrar a "solidão a dois". Com o passar dos anos, os casais se fortalecem e parecem viver um para o outro, mas de uma forma diferente daquela vista na cidade. Quando um deles morre, começa aquilo que alguns chamam de a única tragédia do sertão que pode ser considerada pior que a seca.

O lamento dos viúvos - Beto Macário/UOL

A exclusão do excluído

Entre as medidas anunciadas pelo governo federal está uma linha de crédito, a juros reduzidíssimos, para garantir capital ao agricultor durante a seca. Mas na prática, parece que um "detalhe" passou despercebido: 90% dos produtores rurais têm pendências nos financiamentos tomados nos anos 90. Eles dizem que o calote ocorreu porque os juros e o modelo de correção fizeram com que as dívidas quintuplicassem em pouco mais de uma década. “Ou a Dilma age, ou terá que criar o bolsa esmola para o produtor”, desabafa o produtor e engenheiro agrônomo Vilibaldo Pina de Albuquerque, de Batalha (AL). O problema se torna ainda mais grave pela questão dos empréstimos precisarem de avalistas. “Todo mundo aqui formou par, ou seja, um avalizou o empréstimo de outro. Se eu pagar o meu, mas o que eu avalizei não pagar, não servirá de nada, meu nome continuará sujo. Ou seja, seremos excluídos desse processo.” Há casos de pedidos de R$ 15 mil que se tornaram dívidas de R$ 200 mil, ou seja, duas vezes mais que o terreno que o agricultor possui. Por isso, muitos já têm as propriedades em lista de leilões do governo, mas que acabam sendo executados, mas sem compradores. O motivo? Simples: “Se alguém daqui comprar minha fazenda e quiser me expulsar, sabe que vai ter guerra, pois só saio daqui morto”, diz um proprietário. 

A ficha pela água

Em Santa Brígida (BA), cinco comunidades rurais –sem sistema de abastecimento de água encanada-- contam com poços artesianos, que garantem o "líquido da vida" mesmo em épocas de seca. No município, as cinco comunidades não teriam água não fossem os dessalinizadores. Os equipamentos tiram o sal da água subterrânea e a tornam própria para o consumo. Para evitar o desperdício e o uso descontrolado, a prefeitura implementou um processo de cobrança pela água. Para retirar 20 litros do poço é preciso pagar R$ 0,25 --com o valor, compra-se uma ficha. “Esse pagamento é uma forma deles zelarem pela água”, conta o secretário municipal de Infraestrutura, Alfredo Ribeiro. A comunidade, em vez de reclamar da cobrança, agradece a existência do poço. Segundo a Associação de Moradores do Minuim, o dinheiro é revertido para a compra do produto para garantir a dessalinização. Outros Estados, como Alagoas e Pernambuco, por exemplo, já pensam em implantar a medida. São nos poços e nas pequenas barragens que os agricultores mais apostam como investimento para garantir a convivência durante as secas.

A ficha pela água - Beto Macário/UOL

União que tenta fazer a força

 Em regra, os agricultores nordestinos são organizados e formam instituições fortes, a exemplo dos sindicatos e federações. Em épocas de seca, eles tentam vencer a pouca força política (sempre dominada por coronéis) para, juntos, cobrarem ações do governo e lutarem contra a histórica inércia para minimizar os efeitos das estiagens. Durante a nossa viagem ao sertão, os agricultores apresentaram uma série de reivindicações, entregues aos governos. Em Pernambuco, os sindicatos rurais se uniram e lançaram uma carta com várias propostas. Entre as propostas, a ampliação do bolsa estiagem (de R$ 400 para R$ 680), a construção de mais cisternas de placa (não de plástico, como anunciou o governo), doação de suplemento de ração para os animais e desburocratização dos financiamentos propostos pelo governo. Em meio a um cenário desolador, o principal pedido do sertanejo –depois da água para beber—é a garantia da vida de seus animais. Mais que seus patrimônios, as vacas, bodes, porcos, galinhas são o motivo da vida do pequeno agricultor, que, com a destruição das plantações, só vê neles a esperança de escapar com dignidade da estiagem.

A fome já não assusta tanto

A história das secas no Nordeste se confundem com relatos de mortes, fome e sede. Nos anos 70 e 80, o medo da fome rondava o nordestino. Mas esse não é mais um relato comum. O maior acesso dos trabalhadores rurais às aposentadorias, o Bolsa Família e os seguros pagos pelas perdas de produção criaram um colchão social capaz de suprir, ao menos, a necessidade essencial. “Passo privação, mas não passo  fome”, diz Analice Gonçalves, 47, de Poço Redondo (SE). Quando a moradora diz que passa por “privação”, quer dizer que falta a “mistura” --como chamam a carne, frango, peixe, ovo etc. “Já com a seca, como mesmo porque divido com meus bichos.”

Abastecimento e armazenamento

No sertão do Nordeste, a maioria absoluta das comunidades rurais não tem abastecimento de água encanada e depende do armazenamento do líquido por meio de cisternas. Quando as comunidades têm sistema de abastecimento, a água demora meses para chegar durante a estiagem, como no povoado São José, no município de Poço Redondo (SE). As cisternas --consideradas uma revolução para o semiárido-- têm utilidade indiscutível, mas o seu armazenamento de água é finito, com duração estimada de cerca de três meses. Ou seja, não suporta uma seca prolongada. Mas mesmo sem chuvas elas não perdem a utilidade e, atualmente, servem como reservatório da água depositada pelos caminhões-pipa. Não fossem elas, o sertanejo seria obrigado a repetir uma cena muito vista em décadas passadas: percursos de quilômetros com lata de água na cabeça. O que falta é a construção de mais cisternas, pois se estima que 750 mil casas seguem sem uma.

Abastecimento e armazenamento - Beto Macário/UOL

Cisternas da discórdia

Mais caras que as cisternas de placas, as cisternas de plástico –que estão sendo compradas pelo governo federal, por meio do programa Água para Todos-- já estão chegando em massa ao sertão. Em Santa Brígida (BA), por exemplo, 200 já estão estocadas à espera de outras 800, que devem chegar nos próximos meses. A prefeitura anuncia com felicidade as cisternas, mas não contava com as críticas das entidades representativas ao novo modelo adotado. A principal reclamação é que, além de mais caras, elas excluem o sertanejo do processo de construção. Enquanto nas cisternas de engenharia comum o pedreiro e as peças são compradas na região, as de plástico vêm de fora e não movimentam a economia. Além disso, há relatos de que elas deformam sob o sol escaldante. Leia mais.

Cisternas da discórdia - Beto Macário/UOL

O sertão verde

Uma das frases que mais se ouve no Nordeste é que no sertão, se plantando tudo dá --desde que se tenha água. À distância, muitos duvidam, acham o solo infértil. Mas os projetos de irrigação provam o contrário. Em várias cidades nordestinas, há bons exemplos de produções antes tipicamente litorâneas, como os coqueiros. Em Pernambuco, os moradores de Petrolândia ganharam lotes irrigados há 23 anos da Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco). Os produtores receberam como indenização pelo alagamento de terras, em 1988, quando a cidade foi desapropriada para construção da hidrelétrica Luiz Gonzaga. Em Canindé do São Francisco (SE), o projeto Califórnia é outro exemplo de sucesso.

O sertão verde - Beto Macário/UOL

Hospitalidade em meio à tragédia

Mesmo em tempo de seca intensa, a visita à casa de um sertanejo é marcada pela hospitalidade. Impossível não ser convidado a entrar, sentar e tomar uma água ou um café –ou o que ele tiver a oferecer. No sertão, a falta de chuva e de perspectiva não parece motivo para mau humor. Ele louva o pouco que tem e se apega à fé para ver a chuva voltar ao sertão. Já para os políticos, sobra pouca confiança. "Aqui eles só vêm em tempos de eleição", diz Maria São Pedro, de Glória (BA), que sequer tem energia elétrica em casa. 

Hospitalidade em meio à tragédia - Beto Macário/UOL

Frases

São muitas as manifestações do sertanejo em meio à seca. E elas vão da fé ao protesto. Durante a viagem do UOL, frases de sertanejos chamaram a atenção. "O problema não é a seca, mas a cerca", diz um deles, citando que o maior problema ainda é a terra nas mãos de poucos. Enquanto as fazendas têm água e irrigação (muitas vezes desviadas clandestinamente de rios e barragens), o pequeno produtor vive em seus pequenos lotes sem água e sem assistência técnica. Em Tacaratu (PE), uma pintura em pleno acostamento da PE-375 mostra uma seta apontando que "a água está lá", mirando para o rio São Francisco, que fica a pouco menos de 10 km do local. Em meio a um cenário desolador, com chão rachado e plantas secas, a pintura soa como um pedido desesperado aos governantes, mostrando o "caminho das águas".

Frases - Beto Macário/UOL

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