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Longe do sol, barragens subterrâneas guardam água e mudam vidas no sertão

Imagem de drone da 1ª barragem construída na propriedade de Seu Dedé - Tasso Ramon
Imagem de drone da 1ª barragem construída na propriedade de Seu Dedé Imagem: Tasso Ramon

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

01/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Longos períodos de estiagem trouxeram recurso de volta
  • Barragem retém água da chuva para dentro do solo
  • Armazenamento de água é garantido por até seis meses
  • Vantagem do sistema é que água não fica exposta ao sol

Custo baixo, retorno alto e uma sobrevida à produção agrícola e criação de animais durante os períodos de seca no Nordeste. As barragens subterrâneas não são uma tecnologia nova, mas o longo período de estiagem as trouxe de volta e elas se mostram uma solução para garantir a convivência do sertanejo com um semiárido cada vez mais quente e seco.

A ideia dessa barragem é simples: ela retém água da chuva para dentro do solo por meio de uma parede impermeável construída dentro da terra. Com 50 cm acima da superfície, essa parede no sentido contrário à descida das águas garante um armazenamento de água por até seis meses.

Além de servirem como fonte de abastecimento para muitas regiões sem água na superfície, uma das vantagens do sistema é que a água não fica exposta ao sol.

"Como elas armazenam a água da chuva dentro do solo, tem perdas mínimas de umidade pela evaporação, que ocorre de forma lenta. Isso faz com que se mantenha o solo úmido por um período maior, até quase o fim do período seco", conta a pesquisadora da Embrapa Solos, Maria Sonia Lopes.

Desde 2012, o Nordeste enfrenta ano após ano chuvas abaixo da média, o que trouxe à tona a ideia de construir barragens pelo semiárido. Elas, inclusive, fazem parte do Plano Estratégico de Recursos Hídricos para o Nordeste, feito pelo Serviço Geológico do Brasil e que prevê abastecer 3 milhões de pessoas.

Além disso, há outros projetos tirando as barragens subterrâneas do papel. Um exemplo é Alagoas, primeiro estado do Brasil a ter um mapeamento completo de possibilidade de construção de barragens, feito pela Embrapa.

"Essa água armazenada possibilita o armazenamento para produção de alimentos e para pequenos animais e produção para famílias agricultoras, além da venda do excedente em feiras", afirma Lopes.

O mapa de potencialidades de Alagoas já servirá para subsidiar um programa estadual que prevê este ano construir 50 equipamentos no semiárido, beneficiando cerca de 200 famílias.

Mais seis meses de água

Uma barragem garante armazenamento de água de três a seis meses após as chuvas. "Ou seja, um agricultor que colhe o milho, feijão e as hortaliças no período da chuva, de três a seis meses depois ainda estão colhendo esses produtos", conta.

Em Alagoas, o projeto-piloto de construção de uma barragem subterrânea, feito pelo Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e Sebrae, por meio do Programa Sertão Empreendedor, implantou uma primeira barragem no povoado Olho D'Água do Padre, em São José da Tapera, em agosto de 2018.

A engenheira agrônoma Luana Torres, responsável técnica pelo projeto, diz que os resultados da obra foram excelentes. "Esse projeto dá uma sobrevida aos períodos de estiagem. Para isso, fizemos um curso teórico e prático com a comunidade. Entendemos que é importante que a comunidade tenha capacidade de fazer outras unidades", afirma.

A barragem construída tem 40 metros de largura e três metros de profundidade, com capacidade de armazenar até 25 milhões de litros de água. O custo da barragem é baixo: R$ 22 mil. "Isso inclui o pequeno diagnóstico que tivemos de fazer e os cursos, além da hora de engenheiros e especialistas", conta.

Segundo ela, além de armazenar água, a barragem subterrânea faz com que o solo fique sempre úmido e garanta plantações o ano quase todo.

Ela abastece de cinco a seis famílias, dando segurança alimentar, garantido irrigação de hortas —ponto forte da agricultura familiar—, dando água para os animais e deixando o solo sempre úmido em momentos de seca. Ou seja, a terra está sempre apta a receber plantações."

Bons resultados

O agricultor Edésio Melo, o Seu Dedé, um dos primeiros beneficiados com as barragens - Álvaro Muller/UOL
O agricultor Edésio Melo, o Seu Dedé, um dos primeiros beneficiados com as barragens
Imagem: Álvaro Muller/UOL

No município de São José da Tapera, o agricultor Edésio Melo, conhecido como Seu Dedé, 57, mora no sítio Bananeira e é um dos primeiros beneficiados com uma dessas barragens.

Ele usa água de duas barragens: uma construída dentro do programa Uma Terra e Duas Águas, da ASA (Articulação Semiárido Brasileiro), em 2007; e outra feita com recursos próprios recentemente.

Barragem subterrânea significa caixa d'água do sertão, que faz a gente armazenar as água. Eu cultivo aqui 90 tipos de plantas: para alimento nosso, para alimento para animais, ervas medicinais"

Ele conta que antes de poder armazenar água passou por dificuldades financeiras. "Vieram uns anos secos, desci ao fundo do poço em 2000. Estava devendo R$ 62 mil, pagando juros de todo jeito, pegando emprestado, me afundando. Meus três filhos acabaram viajando para São Paulo. Mas Deus ajudou que, em 2007, essa barragem se apresentou na minha vida e tudo mudou", afirma Seu Dedé, que hoje não tem mais dívidas.

No povoado Olho D'Água do Padre, a realidade dos agricultores beneficiados pela barragem também já melhorou com a barragem feita em 2018.
"Desde que fizeram essa barragem nunca faltou água. Vivo da cana, do feijão, da mandioca, do milho, de tudo que posso plantar. Eu e minha família [que tem mais cinco pessoas] dependemos dela. Minha vida melhorou 100%", afirma José Eleonildo dos Santos, 68.

Cotidiano