Os vencedores e os perdedores das eleições britânicas

Anne Applebaum

Anne Applebaum

“Bagunça, bagunça, bagunça”, escreveu o Daily Telegraph às 2h48 da manhã. É difícil discordar: a eleição mais excitante na história recente produziu uma briga de estatísticas confusas e resultados contraditórios. Os conservadores parecem ter vencido a maior parte das cadeiras parlamentares, mas não a maioria. Grandes números de eleitores votaram contra o Partido Trabalhista em seus distritos tradicionalmente “seguros”, mas o partido conseguiu inesperadamente algumas vagas em outras partes.

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Enquanto isso, Nick Clegg provou ser o homem com quem você flerta, mas não casa: o público britânico, após dar ao líder liberal democrata um enorme pico nas pesquisas de opinião, não votou em seu partido. Apesar da melhor campanha que se tem lembrança, os liberais democratas agora têm menos assentos que antes das eleições.

Como resultado, não posso dizer a vocês, pouco depois do meio dia, quem será o próximo primeiro-ministro do Reino Unido; talvez não fique claro por algum tempo. Contudo, a noite passada teve alguns vencedores e perdedores claros:

Os vencedores

Os especialistas. Décadas se passaram desde que o Reino Unido teve um Parlamento dividido. Praticamente ninguém conhece as regras e procedimentos. Todos que têm algum conhecimento agora vão surgir do nada e nos lembrar o que aconteceu em 1910 ou 1923. Os que de fato se lembram como foi em 1974 –quando o líder trabalhista Harold Wilson formou o mais recente (e notavelmente desastroso) governo de minoria- terão um dia de glória.

A rainha. Tecnicamente, ela nomeia os novos primeiros-ministros e aceita a renúncia dos que se vão. Em geral, são tarefas formais, mas se houver confusão, talvez tenha que ser a juíza. No evento dos partidos não conseguirem formar um governo, ela tem o direito de convocar novas eleições. Subitamente, ela volta a ter importância.

Os “modernizadores” do Partido Conservador. Os “tories” não tiveram uma vitória clara, mas conquistaram a maior parte dos assentos pela primeira vez desde 1997. E não há absolutamente nenhuma evidência que um líder conservador mais “antiquado” teria se saído melhor –pelo contrário, o resultado poderia ter sido bem pior. (E parabéns ao meu amigo Nick Boles, um dos primeiros conservadores a ser abertamente homossexual, ele facilmente venceu em Grantham e Stamford.)

Os perdedores

A libra esterlina. O Reino Unido enfrenta a maior crise de orçamento que se tem lembrança e não está claro que haverá um governo forte o suficiente para lidar com isso. A libra caiu rapidamente contra o dólar nesta manhã e ainda está cambaleante. Hora de passar férias em Londres?

Os eleitores que foram votar tarde da noite. O cenário da Flórida paira sobre alguns distritos britânicos, onde o número de eleitores foi maior que o esperado e levou à falta de cédulas. Alguns eleitores de última hora também encontraram as urnas fechadas.

Os eleitores “contra o establishment”, do tipo “joguem os vagabundos na rua” (chamo eles de “Tea Party” britânico, revoltando muitos leitores) que ficavam dizendo nas pesquisas que estavam cansados de todo mundo e que deram a Clegg aqueles altos índices pré-eleição. Em vez de uma clara mudança, agora estão em uma zona turva. Talvez até tenham de volta Gordon Brown como primeiro-ministro, se ele fizer uma coalizão com os liberais democratas. Imagine “Gordon Brown, a missão”: quando você pensou que era seguro voltar a entrar na água...

 

 

Tradutor: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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