Topo

Protesto contra o casamento gay na França vem de uma extrema direita antiga

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

16/04/2013 08h43

No contexto da crise econômica reaparecem as divisões internas e as antigas tribulações dos países da zona euro. Na França,  estimulada pelo declínio da popularidade do governo Hollande e irritada pelo voto no Parlamento da legislação que autoriza o casamento gay, a  extrema-direita católica voltou às ruas.

Trata-se de um movimento que sempre existiu na França e que teve seu momento de glória no governo do marechal Pétain (1940-1944), durante a ocupação nazista.

Atiçada pela crise, partidários deste movimento manifestam nas  ruas, alegando que o atual governo é uma "ditadura" e que o país caminha para uma "guerra civil".

Num editorial recente, o jornal "Le Monde" atacou "esta direita conservadora e quase sempre reacionária" que se revolta contra as instituições democráticas do país.

Na Espanha, onde a crise é bem mais profunda, as manifestações contra o governo vem da esquerda e visam agora a própria monarquia. Como se sabe, o regime republicano espanhol foi eliminado pela ditadura de Franco, na sequência de um sangrento golpe de Estado e guerra civil que arrasou a Espanha (1936-1939).

Sem sucessores diretos, no meio das pressões da Europa democrática, Franco manobrou para entronizar Juan Carlos como rei da Espanha no final da ditadura. No poder desde 1975, após a morte de Franco, Juan Carlos ajudou a garantir a transição democrática espanhola.

Mas o sentimento republicano nunca desapareceu. Tanto  na Espanha como fora dela, entre os ex-exilados do franquismo e os partidários dos republicanos.

Há pouco tempo em Paris foram inauguradas placas comemorativas relembrando fatos pouco conhecidos: os primeiros blindados que entraram em Paris em 1944, no corpo das tropas aliadas que expulsavam os nazista, eram comandados por republicanos espanhóis e tinham a bandeira da República Espanhola.

Agora a bandeira republicana aparece de novo nas manifestações . O prestígio do rei Juan Carlos e da família real espanhola degringolou nesses últimos anos e a monarquia é cada vez mais rejeitada no país.

No octagésimo segundo aniversário da proclamação da constituição da República republicana espanhola (14 de abril de 1931), houve uma grande manifestação republicana em Madri. O jornal londrino "The Telegraph" registrou a declaração de uma manifestante, uma professora de 45 anos : "a monarquia nos foi imposta pela ditadura e nós a consideramos ilegal. Além do mais, nós consideramos anacrônico o fato de não possuirmos um chefe de Estado eleito, isso não é democrático".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Mais Notícias