Trump e sua política externa de Miss Universo

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Alexander Nemenov/AFP

    10.nov.2013 - Donald Trump posa para foto ao lado da Miss Universo 2013 Gabriela Isler após competição em Moscou, na Rússia

    10.nov.2013 - Donald Trump posa para foto ao lado da Miss Universo 2013 Gabriela Isler após competição em Moscou, na Rússia

Está bem, é fácil criticar a política externa de Donald Trump. Mas só porque ele se referiu recentemente ao ataque ao World Trade Center como tendo ocorrido em "7/11" --que é uma loja de conveniência-- em vez de "9/11", e só porque ele afirmou "eu conheço bem a Rússia" porque realizou "um importante evento na Rússia há dois ou três anos --o concurso de Miss Universo, que foi um grande evento, grande, incrível"-- não se torna desqualificado.

Tenho certeza de que você pode aprender muito batendo papo com a Miss Argentina. Você também pode aprender muito comendo na Casa Internacional das Panquecas. Eu nunca entendi totalmente a política árabe até que comi homus --ou era Hamas?

Aliás, só porque o grande discurso de Trump sobre política externa foi temperado com mentiras --como "o EI está ganhando milhões e milhões de dólares por semana vendendo petróleo da Líbia"-- ele não se torna desqualificado.

"The New York Times Magazine" acaba de publicar o perfil de um dos vice-assessores de Segurança Nacional do presidente, Ben Rhodes, relatando como ele e seus assessores se gabaram de usar as redes sociais, o que o autor chamou de narrativa "largamente fabricada", e uma imprensa que tendia essencialmente a enganar o país para que apoiasse o acordo nuclear com o Irã. O Donald não é o único dado a gabolices idiotas e representações erradas da política externa.

A vida está imitando o Twitter em todo lugar hoje.

Na verdade, criticar Trump por incoerência no que se refere à política externa é um pouco esnobe quando você considera que tanto os democratas quanto os republicanos trataram o Paquistão como aliado, sabendo muito bem que seu serviço secreto negociava com terroristas e era amigo do Taleban --as pessoas que matavam soldados americanos no Afeganistão; ambos trataram a Arábia Saudita como aliado porque precisávamos de seu petróleo, sabendo muito bem que suas exportações do islamismo salafista abasteciam os jihadistas; ambos apoiaram a decapitação da Líbia e depois não ficaram por perto para apoiar uma nova ordem de segurança, abrindo assim um enorme buraco na costa africana para que os migrantes fluíssem para a Europa; ambos apoiaram a expansão da Otan na cara da Rússia e depois se perguntaram por que o presidente russo, Vladimir Putin, é tão truculento.

Não, se eu estivesse criticando as ideias de política externa de Trump não seria por incoerência, hipocrisia ou mentira. Seria porque ele não dá sinais de ter feito a pergunta mais importante: quais são os verdadeiros desafios de política externa que o próximo presidente enfrentará? Não acho que ele tenha uma pista, porque se tivesse não iria querer o emprego. Este é um dos piores momentos para se conduzir a política externa dos EUA.

Considere algumas das perguntas que receberão o próximo ocupante do Salão Oval. Para começar, o que faz o novo presidente quando o necessário é impossível, mas o impossível é necessário? Sim, nós provamos no Iraque e no Afeganistão que não sabemos fazer construção de nações nos países alheios. Mas simplesmente deixar a Líbia, a Síria e partes do Iraque e do Iêmen sem governo, e expulsando os refugiados, levou a uma inundação de migrantes que atingiu a Europa e tensionou a coesão da União Europeia; essa enchente de refugiados poderia muito bem levar à saída do Reino Unido da UE.

O presidente Barack Obama vem dando muitos tapinhas nas próprias costas ultimamente por não intervir na Síria. Eu realmente simpatizava com a dificuldade dessa opção até que ouvi o presidente e seus assessores se gabarem de como sua decisão foi inteligente e como seus críticos são idiotas. O transbordamento humano e geopolítico da Síria ainda não terminou. Está desestabilizando a UE, o Líbano, o Iraque, o Curdistão e a Jordânia. As opções são infernais. Eu não desejaria ter a responsabilidade de tomá-las. Mas ninguém tem o monopólio da genialidade aqui, e nem a volta da vitória de Obama ao redor dessa ruína fumegante, nem as soluções bombásticas e simplistas de Trump são bonitas de se olhar.

E há mais destes fatores de tensão chegando: a queda do preço do petróleo, a mudança climática e as bombas populacionais vão explodir mais Estados fracos, causando uma hemorragia de refugiados em todas as direções.

Há também a questão do que se deve fazer sobre os niilistas em rede? Desde o surgimento de Osama Bin Laden, homens raivosos e superpoderosos nos contestaram. Mas pelo menos Bin Laden tinha uma causa identificável e um conjunto de demandas: limpar a península Arábica da influência ocidental. Mas agora estamos vendo uma mutação. Alguém pode me dizer o que queriam os terroristas que mataram todas aquelas pessoas em Bruxelas, Paris ou San Bernardino? Eles nem sequer deixaram um bilhete; seu ato foi seu bilhete. Esses jihadistas-niilistas suicidas não estão tentando vencer; eles só querem nos fazer perder. É um inimigo duro. Eles não podem nos destruir --agora--, mas vão causar mais dor se conseguirem a munição. Contê-los enquanto se mantém uma sociedade aberta, com privacidade pessoal em seus telefones e na internet, será um desafio.

Depois há a Rússia e a China. Elas voltaram ao jogo geopolítico tradicional das esferas de influência. Mas ambas enfrentam enormes dificuldades econômicas que tentarão seus líderes a desviar a atenção em casa para aventuras nacionalistas lá fora.

Os dias de vitórias claras e satisfatórias no exterior, como a abertura da China ou a derrubada do Muro de Berlim, terminaram. A política externa dos EUA hoje é simplesmente conter a desordem e a confusão. É exatamente o oposto de organizar um concurso de beleza. Não há vencedor, e cada concorrente é mais feio que o outro.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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