Opinião: Eleição nos EUA é disputa entre quem busca mudança e os que tentam evitar

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Lucas Jackson/Reuters

    A pré-candidata democrata na eleição presidencial dos Estados Unidos, Hillary Clinton

    A pré-candidata democrata na eleição presidencial dos Estados Unidos, Hillary Clinton

Sim, estamos em meio à eleição nacional agora. Sim, há dois partidos concorrendo. Mas não, não são os dois partidos que você pensa. Não são "democratas" contra "republicanos". Esta eleição realmente é entre o "Pessoal do Muro" contra o "Pessoal da Internet".

O principal foco do Pessoal do Muro é encontrar um presidente que desligue o ventilador, os ventos violentos da mudança que agora açoitam cada família, em seus locais de trabalho, onde máquinas estão ameaçando tanto os empregos de colarinho branco quanto os de colarinho azul; em seus bairros, para os quais estão se mudando cada vez mais imigrantes de diferentes religiões, raças e culturas; e globalmente, onde pessoas iradas superempoderadas agora estão matando inocentes com regularidade perturbadora. Eles querem parar com tudo isso.

O desejo do Pessoal do Muro de impedir as mudanças pode ser irrealista, mas para ser justo, não se trata apenas de classe e raça. Trata-se também de um anseio por comunidade, por um "lar" no sentido mais profundo, uma sensação de que as coisas que nos ancoram no mundo e fornecem significado estão sendo varridas, de modo que procuram por alguém que detenha essa erosão.

O Pessoal do Muro tem dois candidatos que os atendem: Donald Trump, que se gaba de ser "O Homem" que pode deter os ventos com um muro, e Bernie Sanders, que promete deter os ventos acabando com nossos grandes acordos de comércio global e enfrentando "O Homem" (os milionários, bilionários e grandes bancos). Não vejo como o país pode arcar com os planos de ambos, mas eles têm um apelo visceral simples, de modo que se sobrepõem em alguns pontos.

O Pessoal da Internet entende instintivamente que tanto democratas quanto republicanos construíram suas plataformas em grande parte em resposta à Revolução Industrial, ao New Deal e à Guerra Fria, mas que hoje, um partido do século 21 precisa construir sua plataforma em resposta às acelerações na tecnologia, globalização e mudança climática, que são as forças que estão transformando o local de trabalho, a geopolítica e o próprio planeta.

Assim, o instinto do Pessoal da Internet é abraçar a mudança no ritmo das mudanças e se concentrar no empoderamento de mais pessoas, para que possam competir e colaborar em um mundo sem muros. Em particular, o Pessoal da Internet entende que em tempos de rápidas mudanças, sistemas abertos sempre são mais flexíveis, resistentes e propulsores; eles oferecem a chance de sentir e responder rápido às mudanças. Assim, o Pessoal da Internet defende uma maior expansão do comércio, como a Parceria Transpacífico, e uma maior imigração administrada, que atraia as mentes mais cheias de energia e inteligentes, e mais veículos para aprendizado ao longo de toda a vida.

Gerry Broome/AP
Candidato republicano à Presidência dos EUA Donald Trump

O Pessoal da Internet também entende que apesar de querermos prevenir outro surto de imprudência em Wall Street, não queremos sufocar a tomada de risco, que é o motor do crescimento e empreendedorismo.

Como o Partido Republicano ficou fora da Casa Branca nos últimos oito anos, a base e liderança do partido são os que menos entendem o mundo em que estamos vivendo. Esse é o motivo para o Partido Republicano ter rachado primeiro e porque o Pessoal da Internet republicano, particularmente do mundo empresarial, deixará de votar nesta eleição ou votará em Hillary Clinton.

Por ter sido secretária de Estado, Hillary esteve em contato com o mundo. Ela sabe que a América precisa construir seu futuro com a plataforma do Pessoal da Internet, que foi articulada inicialmente por Bill Clinton e, até hoje, é mais bem articulada por ele. Mas Hillary nem sempre demonstrou coragem própria ou as convicções de seu marido.

Assim, em vez de enfrentar o Pessoal do Muro em seu próprio partido, e dizer a Sanders que "o socialismo foi a resposta errada para a era industrial, de modo que com certeza não é a resposta certa para a era da informação", ela está fazendo concessões ao Pessoal do Muro. Ela está se opondo a coisas que ajudou a negociar, como o acordo de comércio do Pacífico, e oferecendo mais benefícios do governo, mas evitando dizer às pessoas a dura verdade: que estar na classe média, trabalhar arduamente e seguir as regras não é mais suficiente. Para ter um emprego por toda a vida, é preciso permanecer aprendendo por toda a vida, aprimorando-se constantemente.

Para seu crédito, entretanto, ela escolheu um ótimo companheiro de chapa, o senador Tim Kaine, uma Pessoa da Internet com alma. Minha esperança é de que, para o bem do país, o Pessoal da Internet republicano junte-se, com o passar do tempo, ao Partido Democrata e faça com que este se transforme em um partido de Internet compassivo de centro-esquerda para o século 21. Esse seria um partido sensível às necessidades dos trabalhadores, que teria apreço pelo poder de ancoragem de comunidades saudáveis, mas comprometido com o capitalismo, com mercados abertos e o livre comércio, que são motores vitais de crescimento para uma sociedade moderna e para fornecer a cada americano as ferramentas de aprendizado para concretizarem seu potencial.

Não vejo nenhuma chance de o Partido Republicano se transformar em um partido de centro-direita tão cedo. O Tea Party (a ala radical do partido), Trump e a "Fox News" tornaram sua base furiosa demais e desconectada da realidade.

Assim, tudo depende da coalizão que Hillary formar. Para que os Estados Unidos possam prosperar no século 21, precisamos desesperadamente de uma coalizão que possa governar de forma inteligente nesta era de rápidas mudanças. Hillary tem uma chance de quebrar não apenas o teto de vidro para as mulheres, mas também os muros rígidos que dividem nossos dois partidos. Se tiver sucesso, isso fará com que ser a primeira mulher presidente seja seu segundo feito mais importante.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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