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Amaury Ribeiro Jr

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Morte de Ricardo Sérgio, operador do PSDB, leva um pedaço da história

Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do Banco do Brasil, presta depoimento em 2002 - MILTON MICHIDA/AE
Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do Banco do Brasil, presta depoimento em 2002 Imagem: MILTON MICHIDA/AE
Amaury Ribeiro Jr

Natural de Londrina (PR), Amaury Ribeiro Jr é jornalista, escritor e compositor. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou como repórter especial dos jornais O Globo, JB, Correio Brazilense. Trabalhou também como editor da revista IstoÉ e produtor executivo da Rede Record. Em trinta anos, ganhou os principais prêmios de jornalismo: Esso (três), Embratel (dois), Líbero Badaró (dois), Vladimir Herzog (quatro), Rei da Espanha entre outros. É autor dos livros "Privataria Tucana", "O Lado Sujo do Futebol" (junto om Luiz Carlos Azenha e Leandro Cipoloni) e "Poderosos Pedófilos".

Colunista do UOL

18/02/2021 04h00

A morte, na semana passada, do ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira leva consigo parte da história brasileira contemporânea. O óbito foi noticiado na última segunda-feira pelo jornal O Globo.

Ex-tesoureiro de campanhas eleitorais do PSDB ligado ao senador José Serra (PSDB-SP), Ricardo Sérgio ganhou dimensão política e histórica por seu papel chave durante o processo de privatizações das companhias telefônicas no Brasil em 1998.

Indicado ao cargo — segundo ele disse a este colunista em 2001, por meio de sua assessoria — pelo ex-ministro da Casa Civil Clóvis Carvalho, Ricardo Sérgio recebeu a missão de estruturar os leilões das empresas de telefonia. A indicação não foi por acaso. Durante a carreira, ocupou cargos de destaque em instituições financeiras, entre os quais o de diretor do Citibank de Nova York.

Infelizmente, sob os pontos de vista humano e histórico, Ricardo Sérgio não deixou um registro público de sua passagem pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Também inexiste uma entrevista ou um depoimento mais longos sobre a sua trajetória, que se confunde com a própria trajetória do poderoso PSDB de São Paulo. O partido que sonhava em governar o país por 20 anos mas o fez por oito (1995-2002).

CPI do Banestado

Em meu livro "A privataria tucana" (Geração Editorial, 2010) citei fartamente Ricardo Sérgio em virtude do seu papel nas privatizações e nas descobertas da CPI do Banestado. Elas apontavam seu relacionamento com uma rede de doleiros comandados por Dario Messer para receber e enviar dinheiro por meio de empresas do tipo off-shore (abertas em paraísos fiscais e que mantêm o nome dos sócios no anonimato).

Como a CPI terminou numa grande pizza, delimitada por todos os lados depois de um acordão fechado entre o PT e o PSDB, talvez essas revelações nunca teriam vindo à tona se o ex-diretor do Banco do Brasil não tivesse processado por supostos danos morais a revista "Isto É" e este colunista.

O juiz de São Paulo responsável pelo processo determinou que a CPI entregasse todos os documentos com as transações no exterior que se relacionavam ao artesão das privatizações.

Os documentos mostram, por exemplo, o pagamento da off-shore Infinity Trading , aberta por Carlos Jereissati, na conta da empresa Franton Interprises de Ricardo Sérgio no MTB de Nova York. Vale lembrar que naquele banco, a exemplo do Banestado, havia contas bancárias operadas por Dario Messer e por outros doleiros.

O MTB teve suas portas fechadas pelo saudoso e implacável Robert Morgenthau, então o chefe da Promotoria distrital de Nova York, um símbolo nos EUA de combate aos crimes de colarinho branco.

Mas esses documentos só contam uma pequena parte de um dos episódios mais marcantes da política brasileira. Ricardo Sérgio abandonou a vida pública no final do de 1998, depois de ter conversas suas grampeadas no escândalo do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).

Numa conversa com o então ministro da Telecomunicações, Mendonça de Barros, Ricardo Sérgio disse uma frase pela qual seria lembrado sempre. "Estamos agindo no limite da irresponsabilidade", disse na conversa grampeada, depois de informar que havia liberado cartas de fiança para viabilizar a participação de grupos empresariais no leilão.

Depois do episódio, Ricardo Sérgio saiu de cena e não foi mais visto junto ao alto tucanato. Agora mesmo, quando de sua morte, um dos poucos a lamentar publicamente o óbito foi José Serra, que publicou um tuíte no dia 15 manifestando solidariedade à família e amigos.

FHC

Em outros tempos Ricardo Sérgio tinha grande aceitação nas hostes tucanas. Em suas memórias, gravadas no calor dos acontecimentos, Fernando Henrique Cardoso conta que certa feita recebeu Ricardo Sérgio no Palácio da Alvorada ao lado do então ministro Mendonça.

Ontem, ainda, o Mendonça veio me falar sobre as trapalhadas da Telemar e as possíveis soluções. Pediu que eu o recebesse hoje com o Ricardo Sérgio, porque ele não quer que este perceba o nosso espanto diante das manobras havidas no Banco do Brasil, para a montagem do consórcio ganho pela Telemar, a fim de evitar confusões e para que possamos acalmar a situação. Conversei longamente com o Mendonça. [...] Vim para o Palácio da Alvorada, onde recebi primeiro Mendonça com Ricardo Sérgio, pela razão já registrada, e agora acabaram de sair o Malan e o André Lara. Passamos em revista os problemas."
Fernando Henrique Cardoso em suas memórias

FHC atribui a José Serra a entrada de Ricardo Sérgio no seu governo. No volume relativo aos anos 1997-1998 ("Diários da Presidência", Companhia das Letras), FHC fala da saída de Ricardo Sérgio em meio ao escândalo das teles.

Nesse meio-tempo, pediu demissão o Ricardo Sérgio, diretor da Área Internacional Banco do Brasil, pilhado nos grampos. Como se fosse pecado ter ajudado na formação de alguns consórcios. Começou aquela pontaria da mídia em cima dele, uma pontaria que não é certeira, é oblíqua, não sei bem como dizer, e ele caiu fora para evitar mais confusão. Tudo isso deixou o Serra preocupado, porque foi ele quem trouxe o Ricardo Sérgio. Serra sempre fica aflito quando essas pessoas são suspeitas de alguma coisa que não se sabe se elas fizeram. Fica com receio de que isso abale a honorabilidade dele."
Fernando Henrique Cardoso em suas memórias

Nas suas memórias, FHC demonstra uma certa hesitação sobre a inocência de Ricardo Sérgio e um suposto esquema na venda das teles. Ele conta que recebeu uma informação de um ex-presidente da telefônica de Minas Gerais, que relacionava os grampos do BNDES ao então deputado Eduardo Cunha, que muitos anos depois seria o presidente da Câmara.

O executivo disse ainda que "nós desarticulamos o esquema ao tirar o Bosco e o Ricardo Sérgio".

FHC deixa claro que não havia prova dessas alegações do executivo da Telemig sobre Cunha e todo o resto ("falar é fácil, difícil provar"). Ao mesmo tempo, não estava inteiramente certo sobre o que tinha ocorrido. Contou que procurou o então ministro da Casa Civil, Clóvis de Carvalho, para conversar sobre as informações que recebera.

Transmiti isso ao Clóvis, que repudiou imediatamente, com energia, qualquer hipótese de que o Ricardo Sérgio estivesse metido em algo semelhante. Concordo, mas com o Clóvis tem uma dose de boa-fé muito grande, acho que é preciso olhar com calma, sem levantar de público nenhuma dúvida sobre o que tenha ocorrido. Mas preciso ir me certificando sobre quem fez isso, quem fez aquilo, para evitar que as pessoas possam montar esquemas nas nossas barbas. Temos certa dose de ingenuidade nessa matéria."
Fernando Henrique Cardoso em suas memórias

A julgar ser verdadeiro o que diz FHC nas suas memórias, o escândalo era confuso até mesmo para o alto tucanato. Daí a importância de Ricardo Sérgio na reconstituição dos eventos. Quem sabe ele tenha deixado com sua família documentos ou contado histórias a seus parentes que ajudem um dia a elucidar parte dessa história.

Último contato

Pude falar rapidamente com Ricardo Sérgio uma vez na vida. Por volta de 1998, quando eu trabalhava no jornal "O Globo" em São Paulo, soube que ele praticava tênis numa academia no bairro de Higienópolis. Eu precisava ouvi-lo sobre uma reportagem que eu estava fazendo a respeito do escândalo das teles.

Eu o interpelei na calçada, na saída do treino, quando ele caminhava para seu carro. Ele respondeu que eram as infundadas as suspeitas levantadas contra ele. Em 2002, quando trabalhava no "Jornal do Brasil", ele mandou dizer, por meio de sua assessoria de imprensa, que tinha sido indicado ao cargo por Clóvis Carvalho.

Em 2010, na época em que eu finalizava meu livro "A privataria tucana", pude vê-lo saindo de uma importadora de vinhos no bairro Itaim-Bibi, da qual se tornara sócio.

É a última imagem que guardo de um importante e enigmático personagem da vida pública brasileira. Embora eu tenha tido Ricardo Sérgio como um foco das minhas investigações durante muitos anos, devo dizer que ele sempre me tratou com fidalguia e respeito. Isso não o impediu de abrir um processo em 2003, quando escrevi um texto na revista "Isto É". Ao final, acabei absolvido.

A vida de Ricardo Sérgio é um capítulo incômodo e ainda aberto na história do PSDB. Sua morte não o encerra, e já não sabemos se um dia será finalizado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL