PUBLICIDADE
Topo

Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na disputa geopolítica pela vacina, o Brasil é um grande perdedor

Enfermeira segura frasco da vacina da Astrazeneca  - Miguel Riopa/AFP
Enfermeira segura frasco da vacina da Astrazeneca Imagem: Miguel Riopa/AFP
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

18/03/2021 04h00

É considerada uma disputa geopolítica relevante toda aquela que envolva recursos escassos e sem distribuição uniforme entre os países. Em tempos de pandemia, definitivamente é o caso da vacina contra a covid-19.

Para sobreviver em um sistema competitivo, e para que seja considerado minimamente competente, espera-se que Estado reúna doses suficientes para garantir o controle da doença em seu território. Para ser considerado poderoso, é preciso que disponha de um excedente de capacidades, inclusive permitindo suprir outros atores, que dele se tornam dependentes.

O Brasil, infelizmente, não está em nenhuma das duas posições. Cada vez mais longe de ter as credenciais para compor o rol dos líderes no campo internacional, sequer tem sido capaz de articular e negociar sua própria demanda para consumo interno.

Dados recém publicados pelo The New York Times mostram que o Brasil ocupa a posição de número 50 no ranking de vacinados em relação ao tamanho de sua população, com apenas 4,3% do total de brasileiros imunizados até agora.

No fim de 2020, um levantamento feito pelo Deutsche Bank e divulgado pelo Financial Times dava conta de que diversos países considerados ricos possuíam, já naquele momento, número de doses maior do que o necessário para dar conta de todo seu povo. Inglaterra, Estados Unidos e Canadá, por exemplo, compraram pouco mais de cinco doses para cada pessoa. O Brasil, possuía cerca de 0,8 dose comprada para cada habitante.

Embora tenha capacidade de fabricar vacinas nacionalmente, o governo não realizou os investimentos necessários para seguir nessa direção. Adicionalmente, em 2020, teve a chance de adquirir 70 milhões de doses da farmacêutica Pfizer, mas não o fez.

Mesmo no auge do alinhamento ao trumpismo, o Brasil não tentou garantir estoques de vacinas norte-americanas como as da Moderna, por exemplo. Ao ter, por razões ideológicas, se afastado dos BRICS, não manteve canal aberto para buscar acesso prioritário entre os pares. Pior: pôs-se a atacar, de forma irresponsável e preconceituosa, alguns daqueles a quem agora pede socorro.

Isso para não mencionar o fato de que, no campo multilateral, o Brasil, por pouco, não ficou de fora do consórcio da OMS, o Covax. Sob o discurso "anti-globalista", o governo brasileiro criticou a organização enquanto pôde e apenas depois de ser pressionado aderiu à iniciativa comum, ainda que com participação de cota mínima.

O Brasil tem a sexta maior população do planeta e possui a décima segunda maior economia do mundo. No entanto, na luta contra a pandemia, não faz jus ao seu tamanho. Em vez de atentar-se para a disputa que ocorre em torno do bem mais precioso do momento, prefere o discurso televisivo da "gripezinha", a sabotagem das medidas de afastamento social, a disseminação de notícias falsas sobre o uso de máscaras, a cruzada contra a Ciência e a utilização de recursos públicos com remédios comprovadamente ineficazes e potencialmente danosos à saúde.

O reflexo disso é que a falta de visão estratégica não apenas condenará inúmeros brasileiros à morte, como também fará do país cada vez menos relevante nas cadeias globais de valor. Se não somos sequer consumidores de vacina, fica fácil imaginar o abismo que se abriu diante de nós em relação aos países que se prepararam para ser os provedores desse suprimento.

Informações divulgadas por um estudo do Centro de Inovação em Saúde Global da Universidade Duke, nos Estados Unidos, mostram que os países desenvolvidos somam cerca de 16% da população global, mas já adquiriram, até o momento, aproximadamente 60% das doses de vacina disponíveis. Considerando que a capacidade de produção global é limitada, restam, portanto, menos doses disponíveis, principalmente no curto prazo.

Diante da necessidade e da janela de oportunidade, outros integrantes dos BRICS, como Rússia, Índia e China, assumiram protagonismo global quando o assunto é provisão internacional de imunizantes. Dezenas de Estados negociam a vacina russa Sputnik V. Na Índia, para além da produção local de doses da AstraZeneca/Oxford (que ocorrem em parceria com o Reino Unido), multiplica-se também a demanda pela Covaxin, do Bharat Biotech. Do lado chinês, avançam os esforços em torno da CoronaVac, produzida pelo Sinovac Biotech, da BBIBP-CorV, do laboratório Sinopharm, e da Convidicea, do CanSino Biologics.

Ao terem entrado no jogo para fornecer suas próprias vacinas, principalmente para os países em desenvolvimento, os três ampliam sua influência política e econômica mundo afora. Ocupam espaços de poder, costuram alianças regionais e tentam, ao distribuir vacinas, neutralizar a presença de outros atores.

O Brasil, ao contrário, é o exemplo claro de um país que se apequenou diante da crise. Chega à terceira década do século XXI muito menor do que nele entrou. Sofremos todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL