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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro dobrou a aposta e quem paga o preço é o Brasil

O presidente Jair Bolsonaro discursa em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na avenida Paulista - DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente Jair Bolsonaro discursa em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na avenida Paulista Imagem: DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

08/09/2021 11h25

Desde que diversos movimentos da direita radical ganharam força mundo afora, muitos de nós, analistas políticos, recorremos à obra de Max Weber, um dos maiores sociólogos de todos os tempos, para defender a tese da progressiva normalização de discursos extremistas.

Ao distinguir a "ética da convicção" da "ética da responsabilidade", Weber propõe que, se na esfera privada, o conjunto de valores individuais orienta o comportamento político, no caso da vida pública, enquanto governantes, os homens seriam pautados pela racionalização desses princípios e do permanente cálculo de custos relacionados às decisões tomadas. Com base nisso, faria sentido supor que, uma vez no poder, certos líderes não mais estariam dispostos a lidar com as consequências práticas de afirmações e bravatas feitas nos moldes da vida pregressa.

Na contramão dessa lógica, no entanto, fomos surpreendidos por figuras como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, ambos interessados não só em manter as narrativas que os alçaram ao cargo, mas dispostos a dobrar a aposta em momentos de contestação ou tensionamento.

Nos dois casos, a estratégia incluiu a negação sistemática da realidade e a tentativa de criar um mundo distópico para explicar escolhas mal fadadas e a própria rejeição. A diferença central entre Estados Unidos e Brasil, no entanto, está, como já discutimos nessa coluna outras vezes, na enorme disparidade de capacidades entre os dois atores.

Sabemos que a competitividade internacional dos países é condicionada por um conjunto de fatores que vão desde aspectos internos e estruturais até elementos sistêmicos. Não basta falar de concorrência e mercado, de vantagens competitivas, de estratégia, grau de inovação ou qualidade de recursos humanos de uma sociedade. É premente observar também as externalidades, variáveis que afetam a reputação e a competição no plano externo. Nessa chave estão contidos elementos como infraestrutura, saúde, educação, tecnologia, estabilidade macroeconômica e da atmosfera política.

Se, nos Estados Unidos, o "efeito Trump" causou mal estar em algumas dessas frentes, os efeitos foram equivalentes a apenas uma gripezinha passageira. Já no caso brasileiro, os sintomas parecem sugerir um quadro bem mais grave e com implicações de longa duração.

A má gestão é generalizada. Se a crise derivada da pandemia de covid-19 e os desajustes econômicos do governo Bolsonaro já preocupavam investidores e lideranças internacionais há meses, os discursos de 7 de setembro certamente elevaram o risco Brasil a patamares preocupantes.

O presidente reforçou a percepção de que é um moribundo político que radicaliza para as bases na medida em que reconhece o próprio isolamento. A História tem sido implacável em mostrar que aventuras populistas não resistem à dureza da realidade. Para além do que sugerem as bolhas que monopolizaram a bandeira verde e amarela, o Brasil da vida real tem outras cores: é o Brasil da crise política, econômica, social, intelectual e moral.

Há algumas décadas estamos discutindo como promover uma melhor alocação de recursos no campo da educação, ciência e tecnologia. Falamos em teorias sobre a melhoria do ambiente de negócios, de Schumpeter à Levine. Do ponto de vista da gestão macroeconômica, discutimos as elevadas taxas de juros no mercado interno, os spreads bancários excessivamente altos, o câmbio apreciado, a reestruturação do Estado e a carência na infraestrutura. Falamos da baixa exposição ao mercado internacional e da composição da pauta de exportações com forte dependência em commodities. Enfrentamos os desafios dos escândalos de corrupção, da insegurança jurídica e da necessidade de amplas reformas. Nada disso é novidade.

A novidade é que, hoje, não apenas seguimos com o mesmo cardápio diante de nossos olhos, sem nenhum avanço significativo e com diversos retrocessos em várias dessas matérias, como acrescentamos um componente inédito: a ameaça de ruptura de nosso sistema de governança.

O Brasil de 2021 é o Brasil do caos na saúde pública, da "rachadinha", do desemprego recorde, da inflação galopante, do câmbio desgovernado, da fuga de investimentos e de cérebros. É o Brasil da crise institucional, da polarização e do discurso autoritário. Do desrespeito à imprensa profissional, às instituições educacionais e aos poderes constituídos. O Brasil de 2021 é o Brasil em que a "ética da convicção" colonizou a "ética da responsabilidade".

Para além dos efeitos óbvios que vivemos por aqui, não se pode ignorar que a nossa reputação está derretendo no exterior. O Brasil é visto como um país que foi sequestrado por fanáticos auto interessados. Sempre tivemos os nossos gargalos, mas a situação agora é bem mais crítica. Não basta que o governo comemore suas multidões com registros nas redes sociais. A realidade nua e crua é que ninguém quer sair na foto com o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL