PUBLICIDADE
Topo

Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tiroteios em escolas dizem muito sobre a sociedade norte-americana

Até 2012, o massacre de Columbine era o ataque mais mortífero em escolas da história dos EUA - Mark Leffingwell/AFP
Até 2012, o massacre de Columbine era o ataque mais mortífero em escolas da história dos EUA Imagem: Mark Leffingwell/AFP
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

07/10/2021 04h00

Segundo o banco de dados do jornal The Washington Post, mais de 256 mil estudantes viveram violência por armas de fogo em escolas norte-americanas desde o famoso ataque de Columbine, em 1999. Um levantamento feito pela CNN sugere que de 2009 a 2019 foram pelo menos 180 tiroteios em colégios, nos Estados Unidos. Nos nove primeiros meses em 2021 já houve mais incidentes desse tipo do que no ano passado inteiro: números do projeto "Everytown Research" apontam mais de 100 episódios, que já resultaram em mais de duas dezenas de mortos e centenas de feridos. O caso mais recente foi o de Arlington, no estado do Texas.

A recorrência desse tipo de notícias chama a atenção. Para além das tragédias isoladas, no entanto, esses são sintomas de chagas sociais profundamente estabelecidas. Os tiroteios em escolas refletem as mazelas de uma sociedade particularmente desigual, competitiva e violenta.

De acordo com o último censo publicado no início de 2020 nos Estados Unidos, a desigualdade no país já é a maior dos últimos 50 anos. Os números indicam que cerca de 35% do total da riqueza produzida esteja concentrada em 1% da população. A deterioração do mercado de trabalho, o desemprego estrutural e as quedas dos salários levaram a perdas reais para o trabalhador médio. Além disso, os Estados Unidos possuem o pior índice de pobreza do mundo desenvolvido.

Essas são informações particularmente relevantes quando estamos analisando uma sociedade que construiu sua própria narrativa identitária em torno de conceitos como "meritocracia" e o "self-made man" ("o homem que se faz por conta própria").

São variáveis que atingem em cheio não apenas a promessa do "sonho americano", como também revelam os severos danos colaterais que a crença cega no protagonismo individual pode causar. Não se trata de demonizar o espírito empreendedor ou ignorar a resiliência que o incentivo à competição pode trazer, mas de tornar o olhar sensível aos graves riscos a que se submete uma sociedade que vive de excessos.

Sabemos que a violência nas escolas deriva, em muitos casos, de patologias clínicas, inclusive psiquiátricas. Apesar disso, as doenças sociais também precisam de atenção. Bullying na infância. Padrões inatingíveis e cobranças por superação de expectativas na adolescência. Polarização política, baixa percepção de bem-estar e desesperança na vida adulta. Ansiedade, depressão, solidão. Medo, culto ao trabalho excessivo, dependência digital. Esse é o desalentador roteiro da vida de milhares de norte-americanos.

Se décadas atrás, o problema derivava de uma vida era orientada por disciplina, repetição e obediência, na "sociedade do desempenho", para usar uma expressão famosa do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, o imperativo é, cada vez mais, fugir dos rótulos ligados ao "fracasso pessoal". Como bem notou Han, estamos cada vez mais obcecados em parecer "descolados", cheios de propósito e de motivação, mas a nossa busca por autonomia e eficiência é, paradoxalmente, o que mais nos tem escravizado. A sociedade norte-americana está cada vez mais doente e exausta. Nós também.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL