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Jamil Chade

Em seis meses, 75% das vacinas foram para apenas 10 países

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

23/07/2021 04h00

Resumo da notícia

  • 1,1 bilhão de doses foram produzidas no mundo em junho; africanos receberam 1,4%. Já os países mais pobres do mundo receberam apenas 0,2% das vacinas.
  • Entidades temem que terceira dose amplie ainda mais a desigualdade no acesso ao imunizante
  • OMS e OMC admitem "fracasso" do mundo em distribuir vacinas

A ciência venceu. Mas a ganância foi absoluta. Seis meses depois do início global das campanhas de vacinação contra a covid-19, entidades internacionais reconhecem que o mundo fracassou em garantir a distribuição dos iminuzantes de forma justa pelos países, deixando milhões de médicos, enfermeiros e idosos sem proteção.

Numa reunião a portas fechadas nesta semana em Genebra entre empresas farmacêuticas, governos, OMS, OMC e especialistas, os números apresentados não deixaram dúvidas de que o projeto de proteger a humanidade esbarra no nacionalismo, na busca por lucros e na incapacidade de distribuir os avanços da ciência de maneira equilibrada.

"Mais de 3,5 bilhões de vacinas foram distribuídas globalmente. Mas mais de 75% delas foram para apenas dez países", alertou Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. Sua meta é a de vacinar 10% da população de cada país até setembro e 40% até o final do ano.

Para meados de 2022, o objetivo é o de atingir 70%, o que significaria uma imunidade coletiva. Mas, para isso, ele admite que precisa de 11 bilhões de doses de vacinas e uma distribuição justa.

Em números absolutos, a China lidera na vacinação. Foram já dadas 1,4 bilhão de doses, contra 418 milhões na índia e 339 milhões nos EUA. O Brasil aparece na quarta posição em números absolutos, com 128 milhões de doses. Mas apenas 17% da população atendida de maneira completa.

A lista dos dez primeiros é seguida por Alemanha, (87 milhões de doses e 48% da população atendida), Reino Unido (82 milhões de doses e 54% da população), Japão (74 milhões de doses e 23% da população), França (65 milhões e 42%), Turquia (64 milhões de doses e 26% da população) e Itália (63 milhões de doses e 45% da população).

De acordo com a OMS, países com elevadas taxas de vacinação conseguiram reduzir o número de mortos, ainda que a contaminação ainda esteja em alta. Nos EUA, o número de óbitos por dia caiu de mais de 3 mil casos em fevereiro para menos de 200 nas últimas semanas. Na Europa, a queda foi de 40 mil mortos por semana em janeiro para 7 mil em julho.

A constatação da diretora-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Ngozi Okonjo-Iweala, também apontou para o fracasso na solidariedade global. "A desigualdade de vacinas está ficando pior", alertou.

De acordo com ela, 1,1 bilhão de doses foram produzidas no mundo no mês de junho. Mas apenas 1,4% foi para os países africanos, que representam 17% da população mundial. Já os países mais pobres do mundo receberam apenas 0,2% das vacinas produzidas no mês passado.

Segundo Ngozi, a distribuição foi ainda mais desigual nos primeiros 15 dias de julho. "Nos países ricos, 94 doses foram administradas para cada cem pessoas. Na África, são apenas 4,5 por 100 pessoas e, nos países mais pobres, apenas 1,6 por cada cem habitantes", disse.

Na África, apenas 20 milhões de pessoas estavam vacinadas com duas doses, 1,5% da população do continente. Nos países ricos, a taxa é de 42%. "Não podemos aceitar isso, por motivos morais, práticos e econômicos", alertou.

Também preocupa o fato de que a Covax Facility, mecanismo criado para distribuir vacinas aos países mais pobres do mundo, tenha conseguido enviar apenas 134 milhões de doses. A meta de atingir 2 bilhões de doses até o final do ano é considerado como um cenário cada vez mais irrealista,

Na avaliação da OMC, existem avanços importantes, apesar da crise de distribuição. Em junho houve um aumento de 45% no volume de vacinas administradas em comparação ao mês de maio e o dobro do que ocorreu em abril.

Sua esperança é de que, até o final do ano, a produção de vacinas possa chegar a 11 bilhões de doses. Isso, porém, na condição de que novos imunizantes, como Novavax, sejam aprovados por agências regulatórias.

3ª dose pode ampliar desigualdade

Para a entidade Médicos Sem Fronteira, não basta que haja apenas a produção de vacinas. Um dos temores do grupo é de que países ricos embarquem na pressão das empresas farmacêuticas sobre a necessidade de uma terceira dose, o que ampliaria a escassez de vacinas nos países mais pobres.

"Líderes de governos que já vacinaram bem mais do que a população vulnerável precisam parar e olhar para o desequilíbrio dramático no acesso às vacinas", disse Carrie Teicher, diretora da MSF-EUA.

"Não podemos deixar as empresas farmacêuticas prematuramente ditar a necessidade de uma terceira dose na ausência de evidências conclusivas", disse.

Para a entidade, a produção no segundo semestre de 2021 deve ser destinada a cobrir profissionais de saúde e idosos em dezenas de países que, até agora, não foram atendidos.