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Moro coloca sua candidatura na mão de Bolsonaro

ADRIANO MACHADO
Imagem: ADRIANO MACHADO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/01/2020 18h51

Em nova entrevista, dessa vez ao programa Pânico, Sergio Moro como que chamou Jair Bolsonaro para uma partida de xadrez. Diferentemente do capitão, que fala dez vezes antes de pensar, o ex-juiz utiliza as palavras com precisão cirúrgica. Cada frase traz, além do sentido literal, tudo o que está subentendido nas entrelinhas. Na conversa com a bancada do Pânico, há três passagens cruciais.

Numa, Moro reiterou que a candidatura presidencial não é seu propósito de vida. Lembrou que Bolsonaro já manifestou a intenção de disputar a reeleição. E acrescentou, textualmente: "Eu, como ministro do governo, tenho de, evidentemente, apoiá-lo, não tem outra alternativa." Na entrelinha, lê-se o seguinte: se for empurrado para fora do ministério, outras alternativas podem surgir.

Noutra passagem, Moro falou sobre a polêmica do desmembramento do ministério da Justiça. Recriada, a pasta da Segurança Pública seria entregue a outra pessoa. "Tem muita gente querendo enfraquecer o governo, me tirando do governo, e gerando essas intrigas eleitorais", afirmou Moro. Nesse trecho, está subentendido que o ministro pedirá o boné se a pasta for cindida. Sem modéstia, Moro avalia que sua eventual saída enfraquecerá o governo.

Na terceira passagem relevante, Sergio Moro comentou a hipótese de ser indicado para o Supremo Tribunal Federal, na vaga a ser aberta com a aposentadoria de Celso de Mello, em novembro. "...Pode ser interessante e natural na minha carreira", declarou. Na sequência, enfatizou o óbvio: "A escolha, evidentemente, cabe ao presidente da República."

As frases de Sergio Moro estão amarradas por um liame que conduz à seguinte conclusão: quem vai decidir se o ex-juiz da Lava Jato será ou não candidato em 2022 é Jair Bolsonaro. Se continuar conspirando contra sua presença na Esplanada, se preferir indicar um advogado "terrivelmente evangélico" para o Supremo, Bolsonaro empurrará Moro para as urnas.

Josias de Souza