PUBLICIDADE
Topo

Heleno mata charada do MEC: infecção ideológica

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/01/2020 23h37

O general Augusto Heleno, ministro palaciano, amigo e conselheiro de Jair Bolsonaro, acertou no olho da mosca ao diagnosticar numa entrevista a uma emissora de rádio o problema da pasta da Educação. Nas palavras do general, o ministério está "extremamente contaminado" por ideologias. Precisa ser "descontaminado dos dois lados", ele declarou. A única falha que pode ser apontada na avaliação do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência é a ausência de nomes. O general Heleno não deu nome aos bois.

Com um ano de existência, o governo Bolsonaro já teve dois ministros da Educação. Uma piada, Ricardo Velez Rodrigues, foi substituída por um astro amador de redes sociais, Abraham Weintraub. Os dois foram escolhidos não por suas virtudes técnicas, mas pela identidade ideológica com o polemista Olavo de Carvalho, ideólogo do bolsonarismo. Meteram-se numa guerra contra o marxismo cultural. A ineficiência de ambos vai ganhando a forma de um míssil disparado contra o próprio governo.

Quando um governo faz uma opção preferencial pelo desastre numa área vital como a Educação, fica evidente que o problema não está localizado na Esplanada dos Ministérios, mas no Palácio do Planalto. No momento, quem nomeia e demite ministros é Jair Bolsonaro. Se o ministério está "contaminado" pela ideologia, foi Bolsonaro quem transmitiu o vírus. Se a "descontaminação" demora a acontecer é sinal de que o presidente não está curado da moléstia ideológica.

O caso do Enem reforça a sensação de que a ideologia é o caminho mais longo entre um projeto e sua realização. Abraham Weintraub imaginava ter produzido "o melhor Enem de todos os tempos". Entregou, na verdade, um fiasco gerencial. O MEC falhou na correção das provas. Coube aos estudantes, não ao sistema de checagem oficial, apontar o erro. Ao dizer que a lambança pode ter sido provocada por "sabotagem", Bolsonaro, que foi eleito como solução contra erros de governos anteriores, vira parte do problema.

Josias de Souza