PUBLICIDADE
Topo

Damares vai a Genebra e pousa no Mundo da Lua

Ministra Damares Alves (Foto: Reprodução)
Imagem: Ministra Damares Alves (Foto: Reprodução)
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/02/2020 12h06

Noutros tempos, os constrangimentos eram provocados por opositores. Hoje, o governo se embaraça sozinho. Em relação à possibilidade de greve no setor de segurança pública, a Constituição anota uma coisa e a ministra Damares Alves (Direitos Humanos) afirma o oposto.

"Direito à greve é direito garantido", proclamou Damares em conversa com o repórter Jamil Chade. "Nós temos leis que regulam a greve no Brasil. Agora, as pessoas questionam: Mas as forças de segurança têm direito à greve? Direito à greve é direito à greve".

Ciente do apreço que Jair Bolsonaro tem pela corporação policial, Damares quis adular o chefe. Desinformada a mais não poder, falou sobre o que não entende. E colocou sua subserviência acima do texto constitucional, que veda greves de categorias armadas. Coisa já ratificada pelo Supremo Tribunal Federal, em 2017.

Em termos estritamente geográficos, Damares está em Genebra. Em termos práticos, a ministra tem dificuldades para se situar. Oscila entre o otimismo exacerbado e o mundo da Lua. Ambas as posições parecem inadequadas para uma ministra de Estado às voltas com uma viagem oficial.

Quando está com a cabeça enfiada no otimismo, à moda do avestruz, Damares acalenta a ilusão de que os pseudogrevistas do Ceará usufruirão do "direito à greve" sem afrontar o "direito à vida". Quando vai para o Mundo da Lua, a ministra diz acreditar que os policiais cearenses estão "no limite".

No mundo real, os PMs amotinados já ultrapassaram todos os limites. Armados e encapuzados, desafiam as forças da lei e da ordem. Potencializam o crime, sobretudo os homicídios. Chamá-los de grevistas é uma ofensa aos brasileiros que respeitam a lei e não cobrem a cara.

Antes de retornar de Genebra, Damares deveria dar um telefonema para o astronauta Marcos Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia. O choque de retornar da estratosfera para a Terra exige certos cuidados —quem sabe uma câmara de descompressão.

Josias de Souza