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Abraço em presa trans gera onda de ódio ao amor

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/03/2020 15h54

O Brasil revela-se um país paradoxal. Há menos de dois anos, 58 milhões de pessoas votaram num presidente cujo slogan consagra a tese segundo a qual "Deus está acima de tudo". Hoje, o abraço de um médico numa presidiária trans produz nas redes sociais uma onda de ódio que desafia a solidariedade cristã. Considerando-se que a solidariedade é uma forma de amor, pode-se dizer que um pedaço do país bateu bumbo nas redes para alardear o ódio que sente pelo amor alheio.

Como de hábito, o doutor Drauzio Varella abordou no seu quadro no programa Fantástico um problema relevante. Dessa vez, tratou da situação precária vivida pelas mulheres trans que cumprem pena em presídios masculinos, junto com presos homens. É como se lhes fosse imposta uma pena dentro da outra. A certa altura, ao conversar com a transexual Suzy, o médico abraçou sua entrevistada quando ela contou que não recebia visitas na cadeia havia mais de sete anos.

Num primeiro momento, a reação do público foi de solidariedade. Uma chuva de cartas foi endereçada à presidiária Suzy. Depois, a notícia de que a abraçada fora condenada por estuprar e matar um menino de nove anos ateou nas redes a fúria que levou Drauzio a divulgar uma nota. Nela, o doutor recorda que cuida da saúde de condenados há 30 anos. E não pergunta que crimes cometeram. "Sou médico, não juiz."

Não se deve contemporizar com criminosos. Seria um despautério e um desrespeito com a dor dos familiares da vítima. Mas é preciso lembrar que o caso se refere a uma presidiária trans condenada e submetida ao cumprimento do seu castigo. Como não há pena de morte nem prisão perpétua no Brasil, o melhor que o Estado tem a fazer é tentar reabilitar a condenada. Drauzio não fez senão mostrar uma face do desafio com a visão humanista que se exige de um profissional da saúde. Muita gente parece disposta a meter a colher na encrenca. Mas poucas pessoas revelam tanta disposição para melhorar a qualidade do angu quanto o doutor Drauzio Varella. Preferem destilar ódio. Fazem isso, às vezes em nome de Deus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL