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Há 10 mil razões para tratar Bolsonaro como ameaça

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

10/05/2020 05h47

As imagens oferecidas ao país por Jair Bolsonaro são flashs de uma inconsciência conscientemente ostentada. O presidente emite sucessivos sinais de que não quer saber o que está acontecendo. Seja o que for, não está acontecendo com ele. Neste sábado, o país ganhou mais de dez mil razões para tratar Bolsonaro não como uma paródia marcada pelo exagero cômico, mas como uma séria ameaça.

No curto intervalo de 55 dias, a pandemia do coronavírus matou mais de dez mil pessoas no Brasil. Neste sábado, dia em que a marca foi ultrapassada, Bolsonaro fez piada com um "churrasco fake" e passeou de jet ski pelo Lago Paranoá. Parou ao lado de uma lancha. Em conversa com simpatizantes, disse: "É uma neurose -70% vai pegar (sic) o vírus. Não tem como. Loucura!"

A frase repete uma cantilena que Bolsonaro entoa desde que o coronavírus fez a sua primeira vítima oficial no Brasil, em 17 de março. Para o presidente, pandemia é apenas um outro nome para "histeria". O isolamento social, por "inútil", só serve para arruinar a economia. Por isso, os brasileiros com menos de 60 anos deveriam submeter-se à infecção "como homens", pois ela é inevitável.

Na definição do poeta Mario Quintana, o autodidata é um ignorante por conta própria. Bolsonaro, que se graduou em ciência lendo a bula da cloroquina, demora a notar que a doença do ignorante é ignorar a sua própria ignorância. O capitão dá de ombros para uma singela evidência médica: quanto menor for a adesão ao isolamento, maior será o número de cadáveres.

O vírus produz multidões de pacientes que não passam pela porta da UTI. Daí a necessidade de atenuar a velocidade do contágio. Sem uma vacina, não há alternativa senão empurrar as ruas para dentro de casa. Mas Bolsonaro gasta baldes de saliva para sustentar que "o país precisa voltar à normalidade". Pense nessa tese do presidente sem pensar no resto.

Esqueça tudo, pense só na retomada de uma hipotética normalidade. Com o isolamento à brasileira, adotado por governadores e prefeitos sem uma coordenação nacional, a pilha de caixões evoluirá rapidamente de patamares inaceitáveis para níveis inacreditáveis. Sem o isolamento, aí mesmo é que a mortandade evolui para a categoria do genocídio, com aval de um governo cujo lema é "Deus acima de todos."

O inquilino do Planalto diz coisas definitivas ao defender a necessidade de religar as fornalhas do país. Mas ele não define muito bem as coisas. O presidente se abstém de levar à vitrine o Plano Bolsonaro de volta à normalidade. Quando a pilha de corpos ainda somava cinco mil almas, Bolsonaro reagiu à indagação de um repórter com o histórico "e daí?"

A resposta empurrou o descaso de Bolsonaro para a fronteira do paroxismo. Um presidente que assume sua insensibilidade com uma crueza que se confunde com a perversidade merece estudo. Parece ambicionar uma admiração semelhante à que despertam os heróis nietzschianos, para os quais a moral convencional é um desafio à sua convicção de superioridade.

Todo ato de crueldade gratuita, sobretudo quando escorado numa noção pessoal de superioridade, desperta uma curiosidade, um fascínio literário. Por isso, talvez, Bolsonaro vem sendo tratado como uma paródia cômica. Mas coloque os dez mil mortos nas suas circunstâncias, enfiados dentro dos respectivos caixões, enterrados sem a presença de amigos e familiares...

Num cenário assim, fica mais difícil tratar a inconsciência conscientemente ostentada por Bolsonaro como coisa de um nietzschiano convicto afrontando os sentimentos do país em nome da preservação dos sinais vitais da economia. Melhor tratar o fenômeno como vilania assumida de alguém que está preocupado em salvar apenas o seu projeto de reeleição.

A forma inconsequente como Bolsonaro fabrica crises espanta. O episódio da marcha do presidente e do seu séquito de ministros e empresários sobre o Supremo Tribunal Federal encaixou-se no enredo de encrencas como uma espécie de apoteose às avessas.

A tentativa de transferir responsabilidades, como se a vida normal pudesse ser restaurada por uma liminar judicial, foi o sinal mais eloquente da inapetência para decisões e da incompetência de um governante que desgoverna o seu país. Até o primogênito do presidente, o investigado Flávio Bolsonaro, compôs o pelotão da insensatez. Mas não ocorreu ao capitão chamar Nelson Teich, ministro da Saúde.

Tudo o que o governo tem de pior, do desprezo sanitário à tentativa de aparelhar a Polícia Federal, do apoio a manifestações antidemocráticas à aliança com o centrão... Tudo isso foi emoldurado pela antiapoteose do Supremo. Aos pouquinhos, o cinismo de Bolsonaro vai ganhando uma doce, uma persuasiva naturalidade.

No vácuo moral a que chegou o país, Bolsonaro parece imaginar que pode fazer ou dizer o que bem entender. Tudo, afinal, pode ser feito ou dito quando nada tem consequência. Não foram dois nem três, desceram à cova dez mil cadáveres. Estima-se que esse número pode dobrar em pouco tempo.

Contra esse pano de fundo fúnebre, o silêncio que cerca Bolsonaro soa como cumplicidade. O que há no Planalto não é um presidente, mas uma ameaça.

Josias de Souza