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Para Bolsonaro, STF e PF usam filhos para atingi-lo

ADRIANO MACHADO
Imagem: ADRIANO MACHADO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

31/05/2020 05h51

Alheio aos apelos da cúpula do Congresso, Jair Bolsonaro declara-se disposto a medir forças com o Supremo Tribunal Federal. Ele construiu uma teoria. Em privado, acusa ministros da Corte e uma ala da Polícia Federal de utilizar seus filhos para prejudicá-lo, inviabilizando sua Presidência. Promete reagir.

Em visita ao Planalto na última quinta-feira, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, aconselhou Bolsonaro a parar de "esticar a corda" com o Supremo. Ele respondeu que se considera "desrespeitado". Estaria apenas "reagindo".

Neste sábado, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, insinuou numa videoconferência que Bolsonaro produz uma instabilidade que inibe inclusive os investimentos. "O ideal é que a gente consiga ter mais harmonia e menos conflito."

No gogó, Bolsonaro até concorda com a premissa constitucional de que Executivo, Legislativo e Judiciário devem operar de forma independente e harmônica. Mas ele diz a auxiliares que a coisa só funciona se houver "respeito mútuo."

Embora não utilize a palavra, Bolsonaro fala como se enxergasse a formação de complô para apeá-lo do Poder. Nessa versão, os filhos Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro seriam usados como degraus para atingir o pai.

Na percepção do presidente, o primogênito Flávio Bolsonaro está prestes a ser arrastado para dentro do inquérito em que Sergio Moro o acusa de tramar uma intervenção política na Polícia Federal. O caso é relatado no Supremo por Celso de Mello.

Bolsonaro se diz convencido também de que os filhos Carlos e Eduardo são personagens ocultos do inquérito em que parlamentares, ativistas e empresários bolsonaristas são acusados de difundir fake news nas redes sociais. Nesse caso, o relator é Alexandre de Moraes.

Causou irritação a Bolsonaro uma petição encaminhada a Celso de Mello pela delegada federal Christine Correa Machado. Na peça, a doutora pede a prorrogação por 30 dias do inquérito que apura as acusações de Moro.

Ao justificar o pedido, a delegada alegou que precisa realizar novas diligências. Incluiu no rol de pendências a resposta a um ofício encaminhado à Justiça Eleitoral, no Rio de Janeiro. O documento requisita informações sobre investigação relacionada ao suposto enriquecimento ilícito de Flávio Bolsonaro.

A pretexto de negar que tivesse interesse em intervir na PF, Bolsonaro dissera que a superintendência do órgão no Rio jamais investigara sua família. Era lorota. A pedido da Justiça Eleitoral, a PF varejara transações imobiliárias do Zero Um.

Flávio não foi indiciado. Mas o Ministério Público se negou a arquivar o processo. A investigação permanece aberta. Algo que reforçaria a suspeita de intervenção levantada por Moro.

Na petição enviada a Celso de Mello, a delegada da PF enumera outras diligências. E antecipa a intenção de interrogar o próprio presidente da República.

O relator aguarda manifestação do procurador-geral da República Augusto Aras sobre o pedido da PF. Mas Bolsonaro dá de barato que Celso de Mello autorizará a prorrogação das investigações por 30 dias.

"Estão muito enganados se acham que o presidente Bolsonaro vai aceitar passivamente ser tratado como um novo Michel Temer", declarou o auxiliar do Planalto.

Considerando-se o que diz entre quatro paredes, Bolsonaro trata como favas contadas também o suposto interesse do ministro Alexandre de Moraes de implicar seus outros dois filhos —Carlos e Eduardo—no inquérito sobre fake news. "Para nós, é questão de tempo", diz o assessor.

Não é só. Bolsonaro sente cheiro de queimado no Tribunal Superior Eleitoral, que está sob nova direção. Acaba de assumir a presidência do TSE o ministro Luís Roberto Barroso. Ascendeu à vice-presidência o ministro Edson Fachin.

Barroso e Fachin ocupam assentos também no Supremo. O primeiro atuou como algoz de Temer. O segundo é relator da Lava Jato. Suspeita-se no Planalto que a dupla levará à vitrine pedidos de cassação da chapa vitoriosa na campanha presidencial de 2018, acusada de praticar golpes baixos no WhatsApp e outras redes sociais.

Por uma trapaça sorte, Alexandre de Moraes, o relato do inquérito sobre fake news, também passará a dar expediente no TSE. Avalia-se que Moraes não hesitará em compartilhar com a Justiça Eleitoral dados colecionados no inquérito que corre no Supremo.

Josias de Souza