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Wassef: 'Não se deve dar as costas para aliados'

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/06/2020 19h31

Quando Fabrício Queiroz foi preso num simulacro de escritório de Frederick Wasseff em Atibaia, confesso que tive má impressão do então advogado da família Bolsonaro. O doutor parecia ter violado a ética da advocacia e a própria legislação. Mas depois de ler as manifestações mais recentes de Wasseff fiquei me sentindo culpado por desconfiar dele. Estamos diante de uma alma superior.

Wasseff contou à revista Veja que soube que Fabrício Queiroz estava às voltas com um câncer. Ficou sensibilizado. O amigo Jair Bolsonaro tinha cortado contato com Queiroz. O ex-chefe Flávio Bolsonaro se distanciou completamente do operador da rachadinha. E Wasseff decidiu ajudar. Fez isso não porque era advogado de Flávio, mas por razão "100% humanitária", como declarou este ser humano especial.

Depois, Wasseff descobriu que havia uma trama para matar Queiroz e colocar a culpa na família Bolsonaro, acusando o presidente e seu filho de queima de arquivo para evitar uma delação. O que seria, naturalmente, uma fraude. A partir desse momento, além de proteger a vida de Queiroz, Wasseff passou a favorecer o presidente e seu filho, evitando que um cadáver lhes caísse no colo. Fez isso sem avisar aos Bolsonaro. O presidente poderia ter acionado a Polícia Federal. Mas por que preocupá-lo com algo tão trivial? O doutor revelou-se um sublime cultor da amizade.

Tratado como criminoso, Wasseff diz que o Judiciário e o Ministério Público do Rio deveriam lhe agradecer. Não fosse por suas iniciativas, Queiroz não estaria vivo. Bolsonaro e sua família estariam sendo investigados por um suposto assassinato. O advogado disse ter pedido desculpas ao presidente pelos dissabores que possa ter causado. Mas não receia ser esquecido pela primeira-família. Além de todas as qualidades que fazem dele um ser notável, Wasseff realça sua lealdade. "Não traio ninguém nunca."

Wassef pronunciou uma frase simbólica: "Não se deveria virar as costas para antigos aliados." Um observador maldoso poderia interpretar como um recado. Mas Wasseff se declara apaixonado por Bolsonaro: "Amo o presidente", disse ele. Confesso que fiquei decepcionado comigo mesmo por ter pensado mal de alguém como o doutor Wasseff. Se alguém tem culpa nessa história, sou eu.

Josias de Souza