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Disputa por vaga no Supremo virou uma gincana

Ricardo Moraes
Imagem: Ricardo Moraes
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

12/07/2020 06h43

A roda de fogo para a escolha do próximo ministro do Supremo Tribunal Federal converteu-se numa gincana constrangedora e antagônica. Nela, postulantes não-declarados denunciam o interesse pela vaga numa corrida para impressionar o dono da caneta.

A coreografia subverte o sagrado mecanismo do ocultamento. Tamanho é o desejo dos não-pretendentes de se qualificar perante Jair Bolsonaro que eles terminam se desqualificando diante do espelho. Falta ao processo uma noção qualquer de recato.

André Mendonça, o ministro terrivelmente evangélico da Justiça, esgrime o artigo 26 da Lei de Segurança Nacional (calúnia e difamação) contra jornalista que escreveu artigo intitulado "Por que torço para que Bolsonaro morra". Não se deu conta de que desejo ainda não é crime.

Após atear em Bolsonaro um "amor à primeira vista", o presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio Noronha, sinaliza que o sentimento é correspondido. Livrou da cadeia o Queiroz. Libertou até a mulher dele, que nem chegou a ser presa. Ele ganhou reclusão domiciliar porque está doente. Ela foi condenada a interromper a fuga para cuidar do marido.

Num cenário em que futuras delações são abatidas em pleno voo, restou ao procurador-geral da República Augusto Aras reescrever o passado. Munido de autorização suprema, Aras se equipa para fazer uma excursão pelos arquivos sigilosos da Lava Jato.

É como se o chefe da Procuradoria desejasse dessacralizar uma logomarca associada à figura de Sergio Moro, o ex-ministro que percorre a conjuntura com aparência de adversário do mito na sucessão de 2022.

Há em Brasília uma atmosfera de novidade burlesca. Antes, era feio o presidente preencher uma vaga no Supremo com alguém que pudesse agradecer o gesto posteriormente com a toga. Agora, a feiura está no risco de Bolsonaro selecionar o primeiro colocado de uma gincana a ser vencida por aquele que se revelar mais grato pela deferência que ainda nem recebeu.

Josias de Souza