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Josias de Souza

Licença do decano deixa Moro na mão de Gilmar

Nelson Jr./STF
Imagem: Nelson Jr./STF
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/08/2020 18h31

O pedido de licença de Celso de Mello coloca Gilmar Mendes numa situação semelhante à de Diego Maradona na Copa de 1986, durante o jogo contra a Inglaterra. Aos seis minutos do segundo tempo, o craque argentino subiu na pequena área, disputou uma bola com o goleiro e marcou. Maradona não cabeceou. Ele atribuiria o gol mais tarde à "mão de Deus". Gilmar marcará um gol contra a Lava Jato e a favor de Lula se aproveitar a ausência de Celso de Mello para levar a julgamento na Segunda Turma do Supremo o pedido de suspeição de Sergio Moro no caso do tríplex. Mas será um gol de mão.

A ação contra Moro começou a ser julgada em 4 de dezembro de 2018. Nesse dia, a defesa de Lula pediu no plenário da Segunda Turma que o julgamento fosse adiado. Fez isso porque a perspectiva na época era de vitória de Moro. Já votaram contra a suspeição do ex-juiz o relator da Lava Jato Edson Fachin e Cármen Lúcia. Estava subentendido que Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski beneficiariam Lula.

A bola rolaria para os pés do decano Celso de Mello, a quem caberia bater o pênalti decisivo. Mas Gilmar Mendes pediu vista do processo depois que a manobra do adiamento fracassou. Era dezembro de 2018. O ministro disse que se esforçaria para devolver os autos para julgamento ainda naquele ano. Já se passaram quase dois anos. E nada. Se o processo for levado à bancada sem a presença a de Celso de Mello, a disputa que opõe Lula e Moro ganhará a aparência de jogo jogado.

O placar será de 2 a 2. Fachin e Cármen a favor de Moro; Gilmar e Lewandowski a favor de Lula. Em caso de empate, Lula levaria a melhor. Significa dizer que a sentença do caso do tríplex, já confirmada em três instâncias, seria revogada. E Lula, que já se livrou da cadeia, ficaria mais próximo do objetivo de lavar a sua ficha suja, habilitando-se para a sucessão presidencial de 2022. Esse assunto é muito sério para ser decidido com um gol de mão. Depois de ter empurrado a encrenca com a barriga por tanto tempo, não parece razoável que Gilmar Mendes queira dar uma de Maradona a essa altura do campeonato.