PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Mourão vê traidor imaginário infiltrado no INPE

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/09/2020 05h59

O vice-presidente Hamilton Mourão alçou a fronte e encheu o peito como uma segunda barriga para denunciar a presença de um quinta-coluna plantado pela oposição dentro do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O sabotador estaria divulgando sorrateiramente dados mentirosos sobre queimadas na Amazônia.

"É alguém lá de dentro que faz oposição ao governo", acusou Mourão. "Eu estou deixando muito claro isso aqui. Quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga". Mourão mencionou um exemplo: "Recebo relatório toda semana. Até dia 31 de agosto, tínhamos 5 mil focos de calor a menos do que 31 de agosto do ano passado, entre janeiro a agosto."

Diante de uma meia verdade, o vice-presidente citou justamente a parte que é mentirosa. De fato, o Inpe registrou uma queda no número de focos de incêndio na Amazônia. Entretanto, os dados de Mourão não batem com a realidade. Houve cerca de 44 mil pontos de queimada na Amazônia entre janeiro e agosto de 2020. Isso corresponde a 2,8 mil pontos a menos do que fora registrado no mesmo período em 2019 —não 5 mil a menos, como alegara Mourão.

Para complicar, os dados que Mourão cita como se fossem sigilosos estão, na verdade, disponíveis no site do Inpe, ao alcance de alguns cliques. Não faria sentido que um hipotético sabotador desperdiçasse tempo e energia para vazar o que já é público.

Mourão virou chefe do Conselho da Amazônia para colocar sua experiência amazônica e sua autoridade a serviço do combate ao desmatamento e às queimadas. Não está resolvendo.

No limite, assim como há a Rua Voluntários da Pátria, o vice-presidente da República pode reivindicar que alguma outra passe a se chamar, inversamente, de Rua Traidores da Pátria. Mas o combate às queimadas exige dinheiro, mão de obra, dedicação e compromisso com a transparência.

Atribuir o fracasso a imaginários oposicionistas infiltrados pode servir para muita coisa, menos para apagar incêndios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza