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Josias de Souza

Gestão Bolsonaro recebe o 'selo ético' de Renan

Pedro ladeira/Folhapress
Imagem: Pedro ladeira/Folhapress
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/10/2020 18h52

Desde que Jair Bolsonaro rifou Sergio Moro e encostou seu governo nos prontuários do centrão, o bolsonarismo esperava pelo sinal de que o fim, ou pelo menos o indício terminal de que o discurso anticorrupção do presidente não passava de estelionato eleitoral, estivesse próximo. O alarme, finalmente, soou. As declarações de Renan Calheiros sobre o "grande legado" de Bolsonaro funcionam como um dos marcos da derrocada da pose de Bolsonaro. De agora em diante, tudo é epílogo no enredo do governo dedicado à ética.

Renan disse à CNN que Bolsonaro "pode deixar um grande legado para o Brasil, que é o desmonte desse estado policialesco." Cliente de caderneta da Lava Jato, Renan afirmou que Bolsonaro "já encadeou várias medidas." Mencionou o Coaf, empurrado para os fundões do organograma do Banco Central. Citou a Receita Federal, que recebeu uma dose de sedativo. Lembrou a nomeação de Augusto Aras, um procurador-geral sem vocação para procurar. Enalteceu a indicação de Kássio Marques, um candidato ao Supremo cuja supremacia é um ponto de interrogação. Ou de exclamação.

O júbilo de Renan Calheiros é compreensível. Há quatro anos, quando o então senador Romero Jucá defendeu a costura de um pacto para "estancar a sangria" da Lava Jato, sua voz soou como ruído desesperado de alguém que não sabia que estava sendo gravado. Ao afirmar que o pacto deveria incluir o "Supremo", Jucá, companheiro notório de Renan no MDB, parecia ecoar o apavoramento de investigados em apuros, incluindo os ex-sócios do PT. A sangria evoluiu para uma hemorragia na qual Bolsonaro surfou em 2018.

Agora, suprema ironia, Bolsonaro, chefe de uma organização familiar cuja imagem está bem rachadinha, alcança o sonho que nem os profissionais do MDB e do PT conseguiram realizar. Nas palavras de Renan, Bolsonaro promove "o desmonte desse sistema que causou muitas vítimas nos últimos anos e tentou substituir a política nacional e graças a Deus não conseguiu." A única impropriedade dos comentários de Renan é a menção a Deus. O Todo-Poderoso realmente está em toda parte. Mas, no momento, é o Tinhoso quem dá as cartas na política. O desmonte de Bolsonaro ganhou o selo de qualidade de Renan. A conjuntura cheira a enxofre.