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Josias de Souza

Briga Bolsonaro X Doria sacrifica a racionalidade

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/10/2020 20h59

Alguém já disse que a civilização é tudo o que sobra para ser desenterrado dez mil anos depois. Quando os arqueólogos desencavarem o que restou do Brasil, encontrarão sinais de que havia neste pedaço do mapa, no ano da graça de 2020, uma sociedade doente. Nela, o presidente do país e o governador do maior estado da federação trocavam socos retóricos em meio a uma pandemia.

Quando a posteridade puder falar sem o risco de se infectar com o excesso de veneno que escorre da conjuntura, concluirá que o Brasil viveu em 2020 uma época de faltas: falta de lógica, falta de serenidade, falta de compromisso com os interesses da coletividade. Por outro lado, vai-se constatar que o país atravessou uma fase de excessos: excesso de cinismo, excesso de manobras, excesso de politicagem.

Jair Bolsonaro e João Doria devem disputar a Presidência da República em 2022, desde que tenham desempenho para isso. O que não parece razoável é a conversão dos dramas da pandemia —incluindo a testagem, a produção e a distribuição de vacinas— em controvérsia eleitoral. O brasileiro merece ser tratado com mais respeito. No momento, Bolsonaro e Doria brigam pela briga. Interessa pouco à plateia as causas da confusão e a individualização de responsabilidades. O que salta à vista é a percepção de que há um déficit de racionalidade em cena.

Na política, quem não ambiciona o poder erra o alvo. Mas quem só ambiciona o poder vira o alvo. Por enquanto, Bolsonaro e Doria são alvos um do outro. Mas correm o risco de ampliar a zona de aversão. Para tudo há limite. Mesmo as pessoas que não entendem nada de política sabem reconhecer a politicagem quando ela aparece. Mais um pouco, e as pessoas começarão a olhar ao redor à procura de ar fresco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL