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Josias de Souza

Erros de Bolsonaro confundem até o seu governo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/11/2020 18h44

A questão não é cometer erros. Todos cometem. O problema é insistir num velho erro havendo tantos erros novos a cometer. Na administração da pandemia, Jair Bolsonaro acorrentou-se a erros que começam a ficar cansativos. Nas últimas semanas, Jair Bolsonaro recebeu sinais que apontam para a conveniência de apertar os parafusos da estratégia que traçou para lidar com o coronavírus. Mas o presidente optou por ignorar os alertas, mesmo diante do aumento na incidência de contágio e mortes por coronavírus.

Em visita a Goiás, a pretexto de elogiar o brasileiro que leva comida às mesas do país, Bolsonaro chamou de "frouxos" os patrícios que conseguem tomar precauções contra o vírus. "Graças a vocês que não pararam, nós da cidade continuamos sobrevivendo", disse Bolsonaro. "Se o 'fique em casa, a economia a gente vê depois', fosse aplicado no campo, teríamos desabastecimento, fome, miséria e problemas sociais. Parabéns a vocês que não se mostraram frouxos na hora da angústia", ele acrescentou, citando a Bíblia.

O elogio aos produtores rurais é mais do que pertinente. São trabalhadores tão prioritários quanto os médicos e os enfermeiros. Mas o presidente poderia elogiar quem trabalha em setores essenciais sem tratar o brasileiro que foge do vírus como "maricas". Donald Trump, modelo do negacionismo de Bolsonaro, levou um tranco das urnas americanas. O eleitorado brasileiro premiou no primeiro turno da eleição municipal prefeitos que lidaram com o vírus de costas para a pregação de Bolsonaro. Os sinais não são negligenciáveis.

Afora o aspecto político da posição do presidente, há os reflexos administrativos. Num instante em que as infecções e as mortes voltam a subir, o governo adota um comportamento errático.

O general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, recém-recuperado da Covid, se finge de morto. Quem comenta sobre o vírus é o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida: "Acho baixíssima a probabilidade de segunda onda."

A pasta da Saúde publicou nas redes sociais um post que desdiz Bolsonaro: sem vacina ou remédio, a "maior ação contra o vírus é o isolamento social e a adesão às medidas de proteção individual." Subitamente, a mensagem foi retirada do ar.

Um bom líder inspira os seus liderados. Bolsonaro confunde até o seu governo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL