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Josias de Souza

Exportar vacina seria o suicídio político de Doria

                                 Coronavac é desenvolvida pelo Butantan em parceria com a Sinovac                              -                                 NELSON ALMEIDA / AFP
Coronavac é desenvolvida pelo Butantan em parceria com a Sinovac Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/01/2021 18h23

A inépcia e o negacionismo de Jair Bolsonaro fizeram da CoronaVac uma vedete na estreia do espetáculo da imunização no Brasil. A aposta na vacina do laboratório chinês Sinovac elevou a estatura política de João Doria. A tal ponto que alguma coisa lhe subiu à cabeça. E não foi juízo.

Abespinhado com a demora da União em formalizar a encomenda de novos lotes da vacina, o governador de São Paulo acena com a hipótese de exportar as doses excedentes.

Para um político convencional, enviar vacinas para imunizar estrangeiros num instante em que os brasileiros fazem fila para virar jacaré seria um grave erro. Para um presidenciável como Doria, seria suicídio político.

O Butantan oferece 100 milhões de doses da CoronaVac. O Ministério da Saúde já adquiriu 46 milhões. E demora a formalizar a aquisição do restante. Coube a Dimas Covas, presidente da usina paulista de vacinas, dar o ultimato.

O doutor declarou que o Butantan "tem compromisso com outros países e, se o Brasil declinar desses 54 milhões [de doses excedentes], vamos priorizar os demais países com os quais temos acordo."

Ecoando o auxiliar, Doria disse ser "inacreditável" que, em plena pandemia, "tenhamos o distanciamento entre aquilo que o Ministério da Saúde deveria fazer, solicitando mais vacinas que lhe são oferecidas, e esta resposta não é dada".

O suicídio é uma coisa íntima. Não é da conta de ninguém. Mas algum aliado deveria avisar a Doria que seu comportamento é suicida sem parecer que está se metendo na vida —ou, no caso específico— na morte da carreira política dele.

Na pandemia, essa questão tornou-se de enorme pertinência. Bolsonaro ostenta um comportamento de alto risco. O apagão logístico da Saúde empurra o general Pazuello para a autodesmoralização. O Congresso, embora não ignore que precisa aprovar reformas que equipem o país para a travessia pós-covid, se finge de morto.

O governo federal sabe que não pode dispensar a produção do Butantan. Retarda a encomenda para fustigar Doria. O governo de São Paulo não ignora que a imunização dos brasileiros é uma prioridade incontornável. Não ousaria exportar. Fala em exportação para constranger Bolsonaro.

Nesse ritmo, enquanto assiste à escalada de internações e de mortes, o brasileiro vai acabar se convencendo de que convive com uma democracia suicida.