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Vaza Jato dessacralizou Moro, mas não transformou Lula em figura imaculada

Fernando Bizerra Jr/EPA
Imagem: Fernando Bizerra Jr/EPA
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/02/2021 04h16

A Vaza Jato deu a Sergio Moro uma aparência de personagem de planilha da Odebrecht. Nas mensagens extraídas do aplicativo Telegram por criminosos, o procurador Deltan Dallagnol identifica o então juiz da 13ª Vara de Curitiba pelo codinome "Russo", reproduzindo o vício dos executivos da empreiteira de brindar os políticos corruptos com apelidos sugestivos.

Entregue à defesa de Lula pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, a comunicação privada de Moro e Dallagnol chega ao noticiário como uma segunda onda. O efeito político é devastador. O jurídico, desolador. O país assiste ao espetáculo da dessacralização da Lava Jato. Arma-se um grand finale: a anulação da sentença no caso do tríplex, que levou Lula à cadeia.

Movido por uma fé que lembra a origem cristã ou socialista dos seus militantes —dois credos que excluem o ingrediente da dúvida—, Lula se equipa para a ressurreição. Com a ficha suja lavada por supremas togas, planeja percorrer a conjuntura com uma pose de santo, concedendo aos devotos o privilégio de acompanhá-lo com suas preces.

Quem não quiser fazer papel de bobo deve prestar atenção nos detalhes. O conteúdo das mensagens de trocadas entre Moro e Dallagnol oferece à oligarquia corrupta o pano, a linha e a agulha para a confecção do figurino de vítima. Entretanto, não há em meio ao material divulgado até o momento uma borracha capaz de apagar a corrupção que carcomeu o Estado brasileiro.

Continuam intactas as evidências que fizeram de Lula um corrupto de terceira instância. A defesa de Lula sustenta que o tríplex do Guarujá nunca pertenceu ao ex-presidente. Nem sempre foi assim. A assessoria do pajé do PT admitiu que ele era dono do imóvel em dezembro de 2014.

OAS reformou o tríplex

Em notícia veiculada no dia 7 daquele mês, o repórter Germano Oliveira informou no jornal O Globo: a Bancoop, Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo, que deixara cerca de 3 mil pessoas na mão por causa de fraudes atribuídas ao seu ex-presidente, o petista João Vaccari Neto, entregara a Lula o tríplex do Guarujá. Com a falência da cooperativa, a construtora OAS assumira as obras.

O edifício ficara pronto em dezembro de 2013. Mas o apartamento de Lula recebera da OAS um trato especial. Antes unidos apenas por uma escada interna, os três andares foram atravessados por um elevador privativo. O piso ganhou revestimento de porcelanato. Instalou-se no imóvel uma requintada cozinha planejada. A cobertura foi equipada com um 'espaço gourmet', ao lado da piscina.

Ouvida nessa época, a assessoria de Lula declarou: "O ex-presidente informou que o imóvel, adquirido ainda na planta, e pago em prestações ao longo de anos, consta na sua declaração pública de bens como candidato em 2006." Candidato à reeleição naquele ano, o então presidente Lula informara à Justiça Eleitoral que repassara à Bancoop R$ 47.695,38, cifra que não ornava com o valor de um tríplex.

Cinco dias depois de admitir que era dono do imóvel, Lula mudou a versão. Sob os efeitos da má repercussão da notícia que o apresentava como feliz proprietário de um tríplex à beira mar, na praia de Astúrias, uma das mais elitizadas do litoral paulista, o Instituto Lula divulgou, em 12 de dezembro de 2014, uma "nota sobre o suposto apartamento de Lula no Guarujá."

Mulher de Lula pegou a chave

O texto retirou a encrenca dos ombros de Lula. Anotou que foi a mulher dele, Marisa Letícia, quem "adquiriu, em 2005, uma cota de participação da Bancoop, quitada em 2010, referente a um apartamento." A previsão de entrega era 2007. Em 2009, com as obras ainda inacabadas, os cooperados "decidiram transferir a conclusão do empreendimento à OAS."

O prédio ficou pronto em 2013. Os cooperados puderam, então, optar entre pedir o dinheiro de volta ou escolher um apartamento. "À época, dona Marisa não optou por nenhuma destas alternativas", escreveu o Instituto Lula. "Como este processo está sendo finalizado, ela agora avalia se optará pelo ressarcimento do montante pago ou pela aquisição de algum apartamento, caso ainda haja unidades disponíveis."

Já nessa época, tudo o que se relacionava ao tríplex era esquisito. Faltou responder: Por que Marisa pegou as chaves de um apartamento que dizia não lhe pertencer? Em 17 de dezembro de 2014, cinco dias depois da nota em que o Instituto Lula alegara que a ex-primeira dama ainda hesitava entre requerer o dinheiro investido na Bancoop ou escolher um apartamento no edifício Solaris, moradores do prédio informaram ao repórter Germano Oliveira que a mulher de Lula apanhara as chaves do triplex número 164 A havia mais de seis meses, em 5 de junho.

''Todos pegamos as chaves no dia 5 de junho, inclusive dona Marisa", disse, por exemplo, Lenir de Almeida Marques, mulher de Heitor Gushiken, primo do amigo de Lula e ex-ministro Luiz Gushiken, morto em 2013.

Família Lula da Silva inspecionou a obra

Outra interrogação inquietante: por que Marisa demorou seis anos para decidir se queria ou não o apartamento do Guarujá? Só em 8 de novembro de 2015 veio à luz a notícia sobre a decisão da mulher de Lula acerca do apartamento. Nessa data, informou-se que Marisa desistira do tríplex.

Os assessores de Lula esclareceram na ocasião que Marisa acionaria seus advogados para reivindicar a devolução do dinheiro que aplicara no empreendimento. Considerando-se que a OAS assumira as obras do em 2009, a família Lula da Silva levou seis anos para decidir. Cooperados menos ilustres tiveram de decidir na lata, sob pena de perder o direito de exercer a opção de compra.

As mensagens que tisnam a reputação de Moro e Dallagnol não eliminam um outro mistério: por que diabos Lula, Marisa e Lulinha, o primogênito do casal, inspecionaram as obras da reforma do tríplex? Recolheram-se dezenas de depoimentos. Chama-se Armando Dagre Magri uma das testemunhas. É dono da Talento Construtora.

Armando contou que a OAS contratou sua empresa para reformar o tríplex número 164 A. Em valores dfa época, orçou a obra em R$ 777 mil . Realizou o serviço entre abril e setembro de 2014. Avistou-se com Marisa. Estava reunido no apartamento com um representante da OAS quando, subitamente, a mulher de Lula apareceu.

Acompanhavam Marisa três pessoas. O empreiteiro Armando descobriria depois que eram o filho Fábio Luís, o Lulinha, um engenheiro da OAS e ninguém menos que o dono da empreiteira, Léo Pinheiro. Inspecionaram a reforma, atestaram sua conclusão e deram a obra por encerrada.

Não houve fabricação de provas

Zelador do prédio desde 2013, José Afonso Pinheiro relatou ao Ministério Público que Lula também vistoriou as obras do tríplex. Esteve no apartamento, por exemplo, no dia da instalação do elevador privativo. Contou que a OAS limpava o prédio, ornamentando-o com flores, nos dias de visita de Marisa.

A leitura das mensagens capturadas no celular de Dallagnol conduz à conclusão inequívoca de que o então coordenador da Lava Jato desenvolveu com Moro uma proximidade juridicamente tóxica. Trocaram figurinhas, combinaram ações, consultaram-se mutuamente. Ultrapassaram a fronteira que separa o relacionamento funcional.

Moro por vezes adotou um timbre de superioridade hierárquica, imiscuindo-se no trabalho da Procuradoria. Algo que destoa da isenção que a Constituição exige de um magistrado. Não há no material, entretanto, vestígio de fabricação de provas.

Lula forneceu a matéria-prima para sua condenação por corrupção e lavagem de dinheiro. O amigo Léo Pinheiro confirmou a perversão. A sentença já não pertence a Sergio Moro. Foi avalizada pelo TRF-4 e mantida pelo Superior Tribunal de Justiça, o STJ.