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Josias de Souza

Politizadas, Forças Armadas mordem a CPI e assopram as fardas sob suspeição

O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM)  -  Leopoldo Silva/Agência Senado
O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM) Imagem: Leopoldo Silva/Agência Senado
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

08/07/2021 02h16

Na CPI da Covid, quando alguém menciona numa rodinha de conversa o envolvimento de militares no escândalo das vacinas é impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de suspeito. Entre oficiais da ativa e da reserva, frequentam o rol dos encrencados meia dúzia de patentes: um general, três coronéis e dois tenentes-coronéis.

Incomodado com o surgimento de fardas ineptas ou com fins lucrativos, o presidente da CPI, Omar Aziz, lastimou: "Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo."

Abespinhados, o Ministério da Defesa e os comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica disseram que Aziz atacou as Forças Armadas de forma "vil", "leviana", "infundada" e, sobretudo, "irresponsável". Em nota oficial, a cúpula militar escreveu: "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..." A resposta é tardia, desonesta e presunçosa.

A reação chega tarde porque o silêncio das Forças Armadas diante da perversão já havia consolidado a sensação de cumplicidade com oficiais que grudaram na farda um código de barras. É desonesta porque desconsidera o apreço de Aziz pelo pedaço limpo das forças militares. "Quando a gente fala de alguns oficiais do Exército, é lógico, nós não estamos generalizando", declarou o senador. "De forma nenhuma, nós estamos entrando aqui no mérito que as Forças Armadas têm", acrescentou.

A nota da cúpula militar é presunçosa porque ameaça o Legislativo —"As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..."— no pressuposto de que a democracia brasileira aceitaria desaforos. O presidente da CPI foi à tréplica: "Pode fazer 50 notas contra mim, não me intimida." O que farão agora os comandantes militares?

Não podendo estacionar seus tanques na entrada do Congresso, fariam um bem a si mesmos e às corporações que representam se utilizassem sua ira para condenar quem enlameia a farda. A alternativa seria aderir à retórica do capitão, que chama os rivais da CPI de "pilantras", "patifes", "picaretas"...

Depois, bastaria pendurar uma placa na entrada dos quarteis: "Diretório do PMB, Partido dos Militares do Bolsonaro". Não resolveria o problema. Mas diminuiria a taxa de cinismo.