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Josias de Souza

CPI da Covid faz hora extra desnecessariamente

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/09/2021 09h26

Omar Aziz, presidente da CPI da Covid, reiterou numa entrevista à Folha que a comissão já reuniu material para produzir conclusões robustas. Serão constatações tão potentes que Aziz diz acreditar que Augusto Aras, o procurador-geral que não procura, terá dificuldades para "matar no peito" os crimes que serão atribuídos a Bolsonaro. Juntando-se a confiança de Omar Aziz com a agenda que será presidida por ele nesta semana tem-se a impressão de que a CPI faz hora extra desnecessariamente.

A pretexto de aprofundar investigações, Renan Calheiros, relator da CPI, adiou a divulgação do relatório final, que ocorreria na sexta-feira passada. Alegou-se que seria necessário aprofundar a apuração do caso Prevent Senior. Agendaram-se dois depoimentos.

Nesta terça-feira, será ouvida Bruna Morato. Trata-se de advogada dos médicos que disseram ter sido pressionados pela Prevent Senior a receitar remédios ineficazes e usar pacientes de covid como cobaias.

Na quarta, prestará depoimento Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan. Documentos obtidos pela CPI indicam que a mãe do empresário bolsonarista foi medicada com o kit Covid, morreu da doença e o fato foi omitido da certidão de óbito.

É improvável que os depoimentos resultem em material útil à CPI. A comissão já dispõe de dossiê preparado pelos médicos que acusam a Prevent Senior. A fala da advogada não substitui a voz de médicos que deveriam migrar do anonimato para a vitrine. Sob pena de estimular dúvidas como essa: Abstiveram-se de receitar hipotéticas poções mágicas contra covid ou cederam às pressões anticientíficas?

Quanto ao caso da mãe de Luciano Hang, a papelada obtida pela CPI dispensa a presença do empresário. Os senadores fornecem palco para a desconversa de Hang. E corre o risco de reeditar um barraco que aproximou a investigação da atmosfera de um boteco de quinta categoria.

Amigo de Luciano Hang, o senador Jorginho elevou o tom quando Renan citou o dono da Havan. Jorginho e Renan chamaram um ao outro de vagabundo, picareta e ladrão. Renan partiu para cima do colega. Não fosse a interferência da turma do deixa-disso, a dupla teria trocado socos.

Num ambiente assim, o melhor que a CPI pode fazer é encerrar os seus trabalhos. Sempre haverá investigações complementares por realizar. Mas a comissão pode fechar sua conta, remetendo ao Ministério Público o material que pede investigação adicional.