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Lula lança Bolsonaro como seu cabo eleitoral

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

08/05/2022 05h10

Lula inaugurou formalmente sua campanha pelo terceiro mandato num evento em que o verde-amarelo desbotou o vermelho do PT. Antes de discursar, ouviu o hino nacional, entoado à capela pela cantora Tereza Cristina. Falou por 46 minutos contra um pano de fundo em que cintilava uma enorme bandeira do Brasil. Trocou o improviso por um texto escrito. Fez três movimentos. Num, lançou Bolsonaro como candidato a seu principal cabo eleitoral. Noutro, dedicou-se a industrializar a esperança. No terceiro, exercitou seu hábito predileto: falar bem de si próprio.

Bolsonaro tornou as coisas mais fáceis para Lula. O nome do presidente não foi mencionado nenhuma vez. Mas esteve onipresente num discurso em que Lula falou em "restaurar a democracia", "reconstruir o Brasil", restabelecer a "paz", restituir a "concórdia" e desobstruir os canais de diálogo do governo com a sociedade: "Quando governamos o país, o diálogo foi a nossa marca registrada", disse o orador.

Ao aprisionar a língua de Lula dentro das quatro linhas da folha de papel, os redatores da campanha petista evitaram que o candidato disparasse novos tiros contra o próprio pé. E acomodaram nos seus lábios mensagens direcionadas não apenas aos convertidos, mas a nichos da sociedade marcados pela presença de eleitores que não rezam pelo catecismo lulista. Entre eles, por exemplo, militares, evangélicos e empresários.

Lula mencionou 24 vezes a palavra "soberania", muito cara às Forças Armadas. Somando-se as cinco vezes em que citou "soberano", o conceito que traduz a noção de poder político supremo do Estado dentro do seu próprio território e nas suas relações com outros países apareceu no discurso 29 vezes. Sempre associado à ideia de que a gestão Bolsonaro especializou-se na demolição.

Na versão de Lula, o Brasil não será soberano sem refazer o que Bolsonaro desfez em áreas como saúde, educação, política externa, meio ambiente, proteção às comunidades indígenas, às mulheres e aos negros.

"A nossa soberania e a nossa democracia vêm sendo constantemente atacadas pela política irresponsável e criminosa do atual governo", disse Lula a alturas tantas. Numa referência à submissão de parte das Forças Armadas à cruzada de Bolsonaro contra o Poder Judiciário e o sistema eleitoral, o candidato petista disse considerar "imperioso que cada um volte a tratar dos assuntos de sua competência. Sem exorbitar, sem extrapolar, sem interferir nas atribuições alheias".

Lula prosseguiu: "Chega de ameaças, chega de suspeições absurdas, chega de chantagens verbais, chega de tensões artificiais. O Brasil precisa de calma e tranquilidade para trabalhar e vencer as dificuldades atuais. E decidirá livremente, no momento que a lei determina, quem deve governá-lo".

Noutro trecho, o discurso lido por Lula anotou: "Não faremos jamais como o nosso adversário, que tenta mascarar a sua incompetência brigando o tempo todo com todo mundo, e mentindo sete vezes por dia. A verdade liberta, e o Brasil p.recisa de paz para progredir" Foi como se os redatores do discurso desejassem falar para o eleitorado evangélico, realçando que Bolsonaro está preso por grilhões de barbante ao versículo multiuso que extraiu do Evangelho de João —"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".

Lula soou ainda mais explícito quando disse que "pode até se dizer cristão, mas não tem amor ao próximo" um governante que se mostrou "incapaz de verter uma única lágrima diante de seres humanos revirando caminhões de lixo em busca de comida, ou dos mais de 660 mil brasileiros e brasileiras mortos pela Covid."

Rendido à dinâmica da marquetagem, Lula expurgou as polêmicas de sua oratória. Absteve-se de mencionar, por exemplo, a ideia de revogar a reforma trabalhista. Evitou citar até mesmo a versão mais branda da proposta, que falava em "reformulação". Preferiu equiparar num discurso anódino a defesa dos direitos trabalhistas com a pregação em favor da retomada do crescimento econômico.

Declarou: "Vamos provar que o Brasil pode voltar a ser um país que cresce, que se industrializa, que gera emprego. Criar um ambiente de estabilidade política, econômica e institucional que incentive os empresários a investirem outra vez no Brasil, com garantia de retorno seguro e justo, para eles e para o país".

Num dos trechos em que se dedicou ao autoelogio, Lula disse: "Nós fomos capazes de gerar mais de 20 milhões de empregos com carteira assinada e todos os direitos garantidos. Enquanto eles destruíram direitos trabalhistas e geraram mais desemprego".

O candidato apagou da memória a gestão empregocida de sua criatura Dilma. No período da doutora, a economia encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de trabalhadores.

Dilma compareceu ao ato de lançamento da nova candidatura do seu criador. Não constava do discurso escrito. Mas Lula injetou-a num improviso maroto feito no finalzinho de sua fala. A pretexto de elogiar a pupila, Lula misturou o nome dela ao de José Dirceu para informar que ambos não participarão do governo caso seja eleito.

"As pessoas perguntam: você vai levar a Dilma para o ministério, vai levar o Zé Dirceu? Não vou levar, mas jamais a Dilma caberia no ministério porque a Dilma tem a grandeza de ter sido a primeira mulher a ser presidenta do Brasil", afirmou Lula. Esse trecho não foi incluído na íntegra do discurso, divulgada no site do PT.

Diagnosticado com Covid, o candidato a vice Geraldo Alckmin pôde discursar graças às três doses de vacina que tomou. Falou antes de Lula, por vídeo-conferência. Atribuiu a aliança inusitada com o ex-adversário à necessidade de proteger a democracia do risco de um segundo mandato de Bolsonaro.

"Nada, nenhuma divergência do presente, nem as disputas de ontem, nem as eventuais discordâncias de hoje ou de amanhã, nada, absolutamente nada, servirá de razão, desculpa ou pretexto para que eu deixe de apoiar ou defender, com toda a minha convicção, a volta de Lula à Presidência do Brasil", disse o ex-tucano.

Numa espécie de troco ao ex-aliado João Doria, que trafega na terceira via dentro da margem de erro das pesquisas, Alckmin referiu-se a Lula como único candidato capaz de deter Bolsonaro. "Ele não é a primeira, a segunda ou a terceira via. Lula é a única via da esperança para o Brasil." Fugindo do figurino sisudo, Alckmin fez graça. "Lula é um prato que cai bem com chuchu", declarou, antes de prever que a mistura vai se tornar "um hit da culinária brasileira".

Lula deu asas ao chiste. Chegou a sugerir à chefe de cozinha Bela Gil, que fazia as vezes de mestre de cerimônia, a incorporação do prato ao cardápio dos seus restaurantes. A filha de Gilberto Gil não pareceu entusiasmada com a ideia.

Na trincheira da "resistência democrática", Alckmin engoliu em silêncio os sapos servidos por Lula em seu discurso. Velho defensor das privatizações, o vice escutou o cabeça da chapa criticar o governo Bolsonaro por tramar a entrega da Eletrobras à iniciativa privada "a toque de caixa e a preço de banana". Testemunhou a contrariedade de Lula com a venda de subsidiárias da Petrobras.

"Defender nossa soberania é defender a Petrobras, que vem sendo desmantelada dia após dia", disse Lula. "Colocaram à venda as reservas do pré-sal, entregaram a BR Distribuidora e os gasodutos, interromperam a construção de algumas refinarias e privatizaram outras. [...] Precisamos fazer com que a Petrobras volte a ser uma grande empresa nacional, uma das maiores do mundo."

Nos governos do PT, a Eletrobras foi levada ao balcão como um feudo do MDB. Produziram-se escândalos e ruína. Lula entregou duas diretorias da BR Distribuidora, poderosa subsidiária da Petrobras, a prepostos de Fernando Collor. Hoje, Collor é réu em ação penal que o Supremo Tribunal Federal demora a julgar. Pesam contra ele acusações de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa.

A Procuradoria-Geral da República sustenta que o grupo de Collor recebeu mais de R$ 29 milhões em propina entre 2010 e 2014 (governos Lula e Dilma), em razão de contratos de troca de bandeira de postos de combustível celebrados com a BR Distribuidora.

Ainda sob Lula, diretorias da Petrobras foram rateadas entre três partidos: PT, MDB e PP. O resultado foi exposto no escândalo do petrolão e no balanço da companhia referente ao ano de 2014, durante a gestão Dilma. O documento estimou em US$ 2,5 bilhões —R$ 6,2 bilhões pelo câmbio da época— as perdas com a roubalheira.

O balanço da Petrobras resumiu assim a perversão: "...Um conjunto de empresas que, entre 2004 e abril de 2012, se organizaram em cartel para obter contratos com a Petrobras, impondo gastos adicionais nestes contratos e utilizando estes valores adicionais para financiar pagamentos indevidos a partidos políticos, políticos eleitos ou outros agentes políticos, empregados de empreiteiras e fornecedores, ex-empregados da Petrobras e outros envolvidos no esquema de pagamentos indevidos".

Na campanha presidencial de 2018, Alckmin concorria ao Planalto pelo PSDB. Lula estava na cadeia. O PT era representado na disputa por Fernando Haddad. Nessa época, Alckmin descartava a hipótese de apoiar o PT. "Jamais terão o meu apoio para voltar à cena do crime", dizia. Bolsonaro prevaleceu sobre Haddad no segundo turno, impulsionado pelo antipetismo, maior força política da época.

No discurso do ato de lançamento de sua candidatura, Lula evocou um comentário do pedagogo Paulo Freire, espantalho preferido dos cultores da guerra cultural do bolsonarismo, para justificar a aliança com Alckmin, agora filiado ao PSB: "É preciso unir os divergentes, para melhor enfrentar os antagônicos".

Lula revelou-se capaz de atacar todas as debilidades da gestão Bolsonaro, exceto a corrupção. Nesse campo, o presidenciável do PT preferiu limitar-se à autodefesa. "Fui vítima de uma das maiores perseguições políticas e jurídicas da história deste país, fato reconhecido pela Suprema Corte Brasileira e pela ONU".

Tocando trombone sob um imenso telhado de vidro, Lula fez uma pose magnânima: "Não esperem de mim ressentimentos, mágoas ou desejos de vingança. Primeiro, porque não nasci para ter ódio, nem mesmo daqueles que me odeiam. Mas também a tarefa de restaurar a democracia e reconstruir o Brasil exigirá de cada um de nós um compromisso de tempo integral. Não temos tempo a perder odiando quem quer que seja."

O derretimento de Sergio Moro, autoconvertido em antifenômeno de 2022, ajuda a desopilar o fígado de Lula. O desastre em que se converteu a gestão Bolsonaro estimula no candidato do PT a expectativa de que o antibolsonarismo se consolide como um fenômeno maior do que o antipetismo de 2018. Daí a escolha de Bolsonaro como candidato a cabo eleitoral.