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Após xingar educação sexual, governo quer propor que jovens não façam sexo

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

04/01/2020 14h49

O governo Jair Bolsonaro estuda criar um programa para incentivar a abstinência sexual. Quer combater a gravidez na adolescência estimulando jovens a não fazerem sexo.

A possibilidade de sucesso da ideia, já preconizada por movimentos cristãos conservadores, é baixíssima. Mas o que importa é a mensagem passada aos apoiadores do governo, de que tudo está sendo feito em nome da família - por mais que represente, na verdade, um tiro no próprio pé. Pois o Estado brasileiro perde, com isso, tempo e recursos preciosos que poderiam estar sendo investidos em educação sexual nas escolas públicas.

A secretária nacional de família do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Angela Gandra Martins, afirmou à repórter Natália Cancian, da Folha de S.Paulo, que estão sendo avaliados modelos de políticas "de escolhi esperar, de retardar a relação sexual". Camisinha e pílula ficariam só com o Ministério da Saúde.

Esse tipo de abordagem não encontra eco na maioria da sociedade, que quer mais informação ao invés de pregação da abstinência. Pesquisa Datafolha, divulgada em janeiro do ano passado, afirmou que o apoio à educação sexual nas escolas alcançava 54% da população, indo na contramão do que defende o presidente da República.

"Quem ensina sexo para a criança é o papai e a mamãe. Escola é lugar de aprender física, matemática, química. Fazer com que no futuro tenhamos um bom empregado, um bom patrão e um bom liberal. Esse é o objetivo da educação", afirmou Jair Bolsonaro em novembro de 2018.

Em uma live, em março do ano passado, o presidente também reclamou de uma cartilha distribuída pelo governo com ilustrações de como usar preservativos e cuidar da saúde dos órgãos genitais. "Se você pai ou mãe achar que não tem problema, é direito teu. Sugestão, primeiro, é dar uma olhada e se achar complicado, tira essas páginas", disse ele, afirmando que recolheria a publicação.

Da internet, passando pela TV ao comportamento da própria família, tudo pode contribuir para a sexualização precoce. A escola e campanhas educativas são o espaço para orientar os jovens em meio a tudo isso. O que significa quebrar o silêncio e não ampliá-lo. Eles vão começar a experimentar sexo antes do que os responsáveis por eles imaginam ou desejam. Recomendar a abstinência pode funcionar com um pequeno grupo, mas, como política pública, serve apenas ao autoengano.

Seguir essa linha pode limpar a própria consciência, no melhor estilo do "a minha parte perante Deus, eu fiz" e agora a sorte está lançada. Mas só não é pior do que o engajamento em uma "cruzada" contra a educação sexual.

Quem luta contra ela - ou seja, contra permitir que os jovens entendam seu próprio corpo, saibam se prevenir de doenças, tenham noção do impacto de uma gravidez na adolescência e possam conhecer métodos contraceptivos - age para manter não apenas seus filhos e filhas na ignorância, como também para que os dos vizinhos também não tenham acesso à informação e estejam vulneráveis às mesmas consequências.

Educação sexual que tem gerado frutos e conta com desafios. Partos de mães de 15 a 19 anos caíram de quase 630 mil (2007) para 476 mil (2017). De 20% a 16% em dez anos, de acordo com dados do IBGE. Já a taxa de detecção de HIV por 100 mil adolescentes homens de 15 a 19 anos subiu de 3%, em 2007, para 7%, em 2017, o que demanda reforço na conscientização desse grupo. Entre adolescentes mulheres, a taxa caiu de 4% para 3%.

Não apenas há famílias que acreditam em crenças equivocadas, como a pílula anticoncepcional trazer infertilidade, mas também há aquelas que ensinam a seus meninos que "usar camisinha é coisa para frouxo" e, portanto, inaceitável. Ou que "quem manda numa trepada é o homem".

Pessoas e movimentos usam a justificativa da "moralidade" para atacar tudo que estiver em desacordo com sua visão de mundo, inclusive a ciência.

Os mais inocentes acham que estão atuando em nome da vontade de Deus ou em defesa da família. Os mais espertos, que comandam o show ou sabem como dele se apropriar, querem promover sua imagem como "guardiões dos valores" de um determinado naco da população e serem vistos como sua "consciência crítica". Para quê? Ter poder sobre esse naco, aumentar sua capacidade de construir significados e sentidos coletivos.

Importam-se com a perda do poder de sujeitar pessoas à sua vontade. Portanto, se a imposição do silêncio e a defesa da abstinência são algumas de suas principais armas, a conversa franca e o diálogo honesto são as melhores formas de garantir aos adolescentes que se defendam do obscurantismo e tenham uma vida longa e feliz.

Leonardo Sakamoto