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Paulo Guedes usa pobreza como bode expiatório de um governo que desmata

Ministro da Economia, Paulo Guedes - Mauro Pimentel/AFP
Ministro da Economia, Paulo Guedes Imagem: Mauro Pimentel/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/01/2020 13h32

Diante do frio em Davos, na Suíça, o ministro da Economia, Paulo Guedes, agasalhou-se em uma quentinha hipocrisia ao dizer que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza e que pessoas o destroem porque estão com fome. A declaração foi dada à nata global reunida no Fórum Econômico Mundial, na manhã desta terça (21).

Faltou Guedes dizer quem alimenta a fome. Pois se a pobreza é causa, também é consequência. Não nasce de geração espontânea.

Dos indígenas que são expulsos de suas terras em nome da expansão agropecuária e incham favelas, como as de Dourados, no Mato Grosso do Sul, aos miseráveis que ocupam e poluem áreas de mananciais nas metrópoles, como São Paulo, por falta de alternativa de moradia, há sim uma relação entre pobreza e danos ao meio ambiente. Mas em praticamente todos os casos isso é explicado pela ausência do Estado em garantir qualidade de vida através de políticas públicas. Ausência, não, presença seletiva. Pois os mais ricos sempre contaram com a proteção e o apoio do Estado brasileiro.

Inclusive para desmatar, poluir o ar e a água e roubar e especular a terra em nome do lucro. A devastação ambiental no Brasil é fruto de um consórcio entre parte da elite econômica e o Estado brasileiro.

Enquanto ricos passaram relativamente incólumes à crise econômica, protegidos de taxas e impostos, a extrema pobreza atingiu 13,5 milhões de brasileiros em, 2018 - ou 6,5% da população, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE. O número subiu desde 2012, quando eram 5,8%. O instituto afirma que para reverter isso são necessárias políticas a fim de reduzir a vulnerabilidade social e criar empregos de qualidade. O ministro Guedes, contudo, acredita que a saída virá com o ajuste fiscal duro, o que reduz investimentos públicos. Isso é música para os ouvidos de Davos, mas ruído estridente para quem tem um prato vazio à sua frente.

A falta de atualização do Bolsa Família, o fim da política de aumentos reais do salário mínimo, a retirada de salvaguardas e proteções aos trabalhadores através das minirreformas que vêm sendo defendidas pelo governo, a taxação do seguro-desemprego para ajudar patrões a contratarem jovens, tudo isso contribui para o aumento da vulnerabilidade social e da pobreza.

Vale lembrar que Paulo Guedes foi defensor da proposta de aumentar a quantidade de anos que um trabalhador rural precisaria contribuir para se aposentar e a idade mínima que um idoso em situação de miséria deveria esperar a fim de receber um salário mínimo através do Benefício de Prestação Continuada - propostas que gerariam mais pobreza e só não passaram por conta de pressão da sociedade.

Essa pobreza está diretamente relacionada ao modelo de desenvolvimento predatório que adotamos também. Modelo que não conseguimos mudar desde a ditadura militar e para o qual o ministro bate palmas. Crescer é sua meta, não importando quantos fiquem pelo caminho.

É impossível não se politizar a questão da fome por uma simples razão: ela, ao menos no Brasil, é fruto de decisões políticas e econômicas. Decisões que mantém a concentração de riqueza, de terra para plantar e de acesso aos alimentos nas mãos dos mais ricos. Enquanto que para a grande massa de esfarrapados, só resta rezar - o que, inclusive, é um excelente negócio para parte da bancada do fundamentalismo religioso, aliada de Bolsonaro

Uma pequena parte da população acaba sendo obrigada a poluir ou desmatar para sobreviver. Mas se tivesse estrutura e apoio financeiro, produziriam e preservariam o meio ambiente. As maiores taxas de preservação estão exatamente em territórios indígenas e em reservas extrativistas, com as populações tradicionais e os trabalhadores rurais cuidando dos recursos naturais. E não em latifúndios. Mas o Brasil expulsa quem preserva a terra para dar lugar a quem a desmata.

Bolsonaro está rifando a qualidade de vida desta e das futuras gerações com o seu comportamento com relação ao meio ambiente. Para tanto, menospreza a ciência, enfraquece a fiscalização, difama populações tradicionais, abraça o naco anacrônico do agronegócio e deixa claro que o combate a crimes ambientais deixou de ser prioridade, enquanto apoia mudanças na legislação que fariam inveja à ditadura. Tudo isso aumenta a vulnerabilidade que, por sua vez, retroalimenta danos ao meio ambiente.

Precisamos construir uma opção de desenvolvimento que inclua o respeito às leis ambientais sem chance para anistias que criem a sensação de impunidade do "desmata aí, depois a gente perdoa". Que passe pela regularização fundiária geral, confiscando as terras griladas e não premiando grileiros, e a realização de uma reforma agrária, com a garantia de que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades - as verdadeiras responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros - sejam suficientes. Por reconhecer que as mudanças climáticas são uma realidade que vai expulsar milhões de suas terras e gerar fome. Por preservar os direitos das populações tradicionais, os assentados e de projetos extrativistas. Por manter o combate ao trabalho escravo e evitar o desmonte da proteção trabalhista no país.

Isso faz lembrar uma citação atribuída ao já falecido Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL