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Balbúrdia no Enem de Weintraub pode judicializar acesso a universidades

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, com um guarda-chuva em um vídeo em que reclamou de uma suposta "chuva de fake news" - Reprodução/Twitter
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, com um guarda-chuva em um vídeo em que reclamou de uma suposta "chuva de fake news" Imagem: Reprodução/Twitter
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

22/01/2020 19h03

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, nunca foi muito fã das universidades públicas. Já disse que eram locais de "balbúrdia", de "plantações de maconha" e de "laboratórios de drogas", entre outras acusações. Agora, com a presepada nas notas do Enem, ele criou sua obra-prima: a avaliação, usada como base pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada) para escolher os novos ingressantes nessas universidades, perdeu credibilidade.

E o que acontece com um concurso público sem credibilidade?

Na melhor das hipóteses, a situação vai consumir mais recursos públicos para uma auditoria transparente nas notas e nos sistemas - o que pode atrasar o início do ano letivo para os calouros. E, no limite, vai levar a um rosário de processos judiciais para que a prova seja refeita - o que é terrível para a vida de quem ficou de fora da universidade e traz insegurança para quem entrou.

Isso se assemelha a um Campeonato Brasileiro com pontos sub judice em que times aparecem na tabela com asteriscos*, pois podem mudar de posição de acordo com o julgamento do caso.

Weintraub encheu a boca, na última sexta (17), para dizer que esse era "o melhor Enem de todos os tempos". Foi desmentido pela realidade, algumas horas depois, quando pipocaram estudantes nas redes sociais reclamando que suas notas estavam erradas. Segundo as justificativas oficiais, houve um problema na gráfica que imprime provas e gabaritos, fazendo com que candidatos preenchessem o modelo de uma cor e fossem avaliados pelo de outra.

Apesar de ter recebido mais de 172 mil reclamações, o MEC afirmou que problemas foram identificados em menos 6 mil participantes. Deu dois dias a mais para a inscrição no Sisu, mas dezenas de milhares de jovens estão chiando em todo o país, afirmando que foram prejudicados.

Uma auditoria ampla se faz necessária para que não pairem dúvidas sobre o processo e, para tanto, a interrupção do Sisu é fundamental, como apontaram especialistas ouvidos por Rodrigo Ratier, doutor em Pedagogia pela USP e colunista do UOL.

O Ministério Público Federal enviou, nesta quarta (22), ao governo federal uma recomendação para que as inscrições sejam suspensas e que o gabarito de todos os candidatos seja novamente conferido, segundo apuração de Paulo Saldaña, para a Folha de S.Paulo.

Problemas acontecem. A questão é que a solução está sendo produzida na base da correria e da falta de transparência - tudo o que não pode acontecer com o Enem. Afinal, estamos tratando da vida de pessoas que se esfolaram o ano inteiro para conseguir uma vaga em uma universidade pública. Para alguns, esta é a chance de estudar em um bom lugar; para outros, que não têm dinheiro, é a chance de estudar.

O que o governo quer esconder? Algum problema mais grave ou sua própria incompetência? Ou Weintraub está tão na berlinda que, dependendo da resposta que dê ao problema, está fora do ministério?

Em uma democracia, espera-se de um ministro da Educação e de um presidente da República que garantam o cumprimento das regras do jogo. Ao cometer um erro e depois acochambrar a solução às pressas, a impressão é de que algo foi mexido sem que os jogadores entendessem o que aconteceu.

Se querem levar adiante a sua "guerra cultural", para "refundar" a sociedade brasileira em "valores conservadores", primeiro Abraham Weintraub e Jair Bolsonaro têm que oferecer o básico: um país que funcione e no qual as pessoas possam confiar.

Em tempo: Você, estudante, caso o Enem atrase sua vida, fique calmo e lembre-se das palavras do ministro: "este é o melhor Enem de todos os tempos".

Leonardo Sakamoto