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Leonardo Sakamoto


Para livrar Flávio, Bolsonaro diz que mandou premiar matador, afirma Freixo

Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro, filho do presidente - Reprodução/Instagram
Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro, filho do presidente Imagem: Reprodução/Instagram
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

15/02/2020 20h13

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, neste sábado (15), que Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, grupo de extermínio que atua no Rio de Janeiro, era "um herói da Polícia Militar", em 2005, quando foi homenageado pelo então deputado estadual e, hoje, senador, Flávio Bolsonaro. Adriano foi morto, no último dia 9, em uma ação das polícias da Bahia e do Rio, em Esplanada (BA), após mais de um ano foragido.

"Quando Adriano da Nóbrega é expulso da Polícia Militar por envolvimento com o jogo do bicho, sua e mãe e esposa continuam trabalhando no gabinete de Flávio. Informações de investigação do Ministério Público mostraram que o dinheiro delas ia para o próprio Adriano. Ou seja, ele era tão 'herói' a ponto de receber do gabinete?"

O questionamento é do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que presidiu a CPI das Milícias na Assembleia do Rio, em 2008, ouvido pela coluna. Ele afirma que, quando foi condecorado por Flávio, Adriano já era matador.

Ainda de acordo com o presidente da República, foi ele mesmo quem "determinou", na época, que Flávio homenageasse Adriano, quando o policial esteve preso pela morte de um guardador de carros.

Na avaliação de Freixo, ele está chamando para si a responsabilidade a fim de "salvar a pele do filho", investigado pelo Ministério Público do Rio sob a suspeita de ficar com parte dos salários dos funcionários - a chamada "rachadinha". E também com relações mal explicadas com Adriano, um chefe de matadores de aluguel. "Fabrício Queiroz, amigo de Adriano, trabalhava no gabinete de Flávio, mas era ligado a Jair. O presidente vai assumir as negociações de Queiroz também?", questiona Freixo.

De acordo com o deputado, isso não é surpresa, uma vez que, segundo ele, o presidente sempre defendeu grupo de extermínio. "Naquela época, ele considerava Adriano um herói por conta de tudo o que fazia."

A família e o advogado de Adriano da Nóbrega falam em queima de arquivo, pois Adriano sabia demais. A revista Veja trouxe fotos do corpo e análise de peritos que apontam para essa possibilidade. O governo da Bahia, por sua vez, descarta a hipótese.

Adriano, Queiroz, Flávio

No gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, trabalhavam a mãe e a esposa de Adriano, que era amigo de Fabrício Queiroz, o faz-tudo da família Bolsonaro. O miliciano também foi homenageado pelo filho primogênito do presidente, uma outra vez, com a Medalha Tiradentes, da Assembleia do Rio, em 2003.

O próprio Jair Bolsonaro o chamou de "um brilhante oficial", em discurso no Congresso Nacional, mesmo tendo Adriano sido condenado, em 2005, a quase duas décadas de prisão pela morte do guardador por ele ter denunciado extorsões de policiais a moradores de uma comunidade. Adriano conseguiu um recurso para um novo julgamento e foi absolvido no ano seguinte.

"Não tem nenhuma sentença transitada em julgado condenando capitão Adriano por nada, sem querer defendê-lo", afirmou Jair Bolsonaro, neste sábado.

Segundo apontou levantamento da Agência Pública, Flávio foi o candidato mais votado em Rio das Pedras, território do Escritório do Crime, em 2018.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública havia deixado o miliciano Adriano da Nóbrega de fora da lista dos bandidos mais procurados do Brasil, divulgada no dia 31 de janeiro. O ministro Sergio Moro foi alvo de críticas por causa disso.

Leonardo Sakamoto